segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alguns apontamentos (rascunhos) dos primeiros anos*


Quando começaram as viagens para trabalhar com a Formação de Filósofos Clínicos, ainda no início dos anos 90, não poderia imaginar o quanto de ensinamentos, aprendizagens, vivencias teria. As pessoas incríveis e os lugares lindos desse enorme país que iria conhecer: alunos, partilhantes, amigos, cidades e seus labirintos.

Naquele tempo ainda tínhamos, em Porto Alegre, apenas o pequeno aeroporto Salgado Filho, hoje apelidado de ‘salgadinho’ pelos taxistas, em razão de ter cedido lugar para um Salgado Filho maior, mais moderno, hoje em vias de ampliação até.

Nessa mesma época ainda tínhamos a VASP, VARIG, TRANSBRASIL, TAM com o comandante Rolim estendendo seu tapete vermelho aos viajantes. O lanche não era lanche, eram refeições completas, com sobremesa e tudo! No aeroporto de Congonhas em São Paulo, por exemplo, a TAM tinha um espaço reservado aos clientes, algo semelhante aos banquetes gregos...

Minha primeira turma da Pós-graduação foi um grupo de alunos integrado por professores e ex-alunos da PUC/MG, outros da Universidade Estadual mineira. As aulas aconteciam na sede do ISTA no mesmo bairro da PUC, se bem me lembro. Uma turma de 29 alunos, alguns de estados vizinhos como o Espírito Santo, iniciaram a caminhada da Formação Clínica. Muitos curiosos, outros festivos, tinham os céticos, alguns talentos...

Naquela época o curso possuía a duração de 24 meses na parte teórica, mais os estágios, supervisão. Deste grupo inicial, somente 11 concluíram a fase inicial. Desse tempo recordo alguns que alcançaram a habilitação clínica: Sebastião Soares, Darcy, Alex Lamonato, Soraia, Vanessa. Belo Horizonte é uma capital linda, acolhedora, com uma gente sensível, humana, sua poesia existencial transpira no jeito carinhoso de acolher em sua casa, no seu coração.

Depois surgiram convites para abrir turmas em várias cidades, como Divinópolis, terra da Filósofa e Poetisa Adélia Prado. Inicialmente uma aula inaugural na Faculdade de Filosofia, hoje Universidade Estadual Mineira, onde iniciamos com um grupo de 20 alunos, aproximadamente, deste time quase todos concluíram os estudos da teoria. Mas uma vez, somente alguns poucos chegavam à supervisão. Muitos diziam estar satisfeitos com os conteúdos para sua vida ou aplicando na sua profissão. Outros buscavam clinicar como Filósofos Clínicos e assim fizeram.

Na sequência fui convidado para uma apresentação da Filosofia Clínica na UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei/MG). Nessa época, viajava de avião de Porto Alegre até Belo Horizonte e, depois, seguia viagem de ônibus ou alguma carona para os centros do interior mineiro.

No dia da fala no salão nobre da UFSJ, encontrei um pequeno e animado grupo de estudantes de Filosofia, Psicologia, Pedagogia, interessados no tema. Perguntei o por que de tão poucas pessoas, já que era uma noite com aulas na instituição e o convite chegou à todos... a resposta foi de que alguns professores, especificamente na Filosofia, proibiram os alunos de participar do evento, alguns até marcaram prova e trabalho para o dia da palestra. Incrível que alguns desses mestres, alguns anos depois, vieram estudar conosco. 

Nessa época também se aprendia que era preciso coragem para estudar Filosofia Clínica num país de vocação colonial.

Nesse tempo as viagens eram constantes da capital gaúcha aos finais de semana, normalmente nas sextas-feiras, retornando na segunda. As atividades incluíam aulas, clínicas, supervisão... Durante a semana atendia na clínica junto ao Instituto Packter, no PSF da Vila Alto Erechim, dava aulas na Faculdade, dentre outras atividades.

Logo depois comecei a trabalhar em Florianópolis, por volta de 1998, onde permaneci por cerca de 06 anos. Basicamente, a cada final de semana estava num Centro de Formação, além das aulas em Porto Alegre. Nesses locais também clinicava, fazia supervisão.

Em Florianópolis tive contato com grupos distintos de alunos, mais uma vez, começava a cair por terra a minha ilusão inicial de que a clínica era uma prática para todos! A caminhada da Formação é exigente, reivindica uma disposição de alma incomum: leituras, a clínica pessoal, os primeiros atendimentos, as inseguranças, uma coragem e atitude singular, para início de conversa.

Voltando às Minas Gerais, de onde nunca saí por inteiro, bem assim de Florianópolis, Rio de Janeiro, São Paulo, Teresina, Salvador, Curitiba, Fortaleza, só para citar as primeiras cidades, iniciamos uma turma animadíssima em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Se não estou enganado, eram cerca de 25 alunos, a maioria concluiu seus estudos. Vinham da região como: Tupaciguara, Araguari, Uberaba... Gente incrível! Com eles também me tornei uma pessoa melhor.

Era comum, nessa etapa inicial da Filosofia Clínica, a crítica ácida, maldosa, covarde, de muitos ‘caciques’ da Filosofia, a maioria desses comentadores, refugiada nalguma universidade. Essas pessoas, sem conhecimento de causa, nos atacavam gratuitamente (depois se soube que não era tão gratuito assim...). Mais tarde alguns vieram conhecer e se encantaram com a mensagem da Filosofia Clínica. Ficaram espantados em saber que era produto nacional. Um novo paradigma pensado, estruturado, iniciado por um médico e filósofo gaúcho que recém voltava da europa: Lúcio Packter.

Mais uma vez se reafirmava o pensamento de Thomas Kuhn na “Estrutura das revoluções científicas”, de que os novos modelos no mundo da ciência, raramente surgem nas universidades, com os profissionais da área.

Outra curiosidade dessa época eram os locais onde se trabalhava, desde salas de aula em escolas e faculdades, igrejas, sindicatos, casas de alunos, hospitais, clínicas, salão de cabeleireiros...

Desses tempos iniciais na relação com alunos, colegas, amigos, tenho uma enorme gratidão! Um amor que suporta o tempo, a distância!

Continua (...),

*HS