quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Alguns apontamentos (rascunhos) dos primeiros anos*


Em 2001, se a memória me ajuda, aconteceu o III Encontro Nacional em Fortaleza, outro evento gigantesco da Filosofia Clínica dos primeiros tempos! Colegas de todo o país estavam presentes. Nós seguimos em caravana de Porto Alegre para a linda capital cearense. Palestras, debates, conversações, música, poesia, teatro... Marcou o terceiro encontro nacional, que buscava atualizar a estrutura de pensamento dos centros de formação, reencontrar colegas, amigos, dentre muito mais...

Entre os anos de 2001 e 2005 muitas mudanças aconteceram no panorama dos centros de formação. Por exemplo, um troca-troca de coordenação, locais das aulas e clínicas, desajustes, ajustes, encontros e desencontros, fenômenos marcadamente humanos, demasiado humanos, talvez! Fui morar em Florianópolis, depois Rio de Janeiro, Juiz de Fora, São Paulo, Niterói, São João del Rei, Porto Alegre, para onde retornei em 2010.

A prática da Filosofia Clínica ia ganhando espaço em todo o país, de norte a sul, leste a oeste. E claro, com a visibilidade vieram elogios, críticas, ameaças, distorções, publicações contra, a favor, era só alegria! Algumas perguntinhas recorrentes sobre o novo paradigma na época: o curso é reconhecido pelo MEC ? Qual a habilitação de um Filósofo para tratar psicoses ? Qual a medicação que o Filósofo usa ? É uma terapia de aconselhamento ? Onde o Filósofo Clínico atende ? A atividade é reconhecida ? Existe a profissão ? Pessoas consideradas acima de qualquer suspeita criticavam sem saber do que se tratava, filósofos inclusive! Nomes que um dia vamos divulgar, com seus respectivos textos da época... Também aconteciam elogios, notas de boas vindas...

Essas questões, dúvidas, perguntas apareciam volta e meia, nas aulas inaugurais em universidades, palestras, de parte de um ou outro, no entanto, a maioria que buscava a formação em Filosofia Clínica era gente de outra espécie, traduzindo: profissionais bem sucedidos em suas áreas de atuação, como psicólogos, médicos, engenheiros, advogados, psicanalistas e, até, filósofos... também os filósofos iniciantes, alguns ainda estudando filosofia, se aproximavam do novo paradigma.

Chamava a atenção, nessa época, o perfil desses primeiros alunos, para o fato de se despreocuparem com as questões burocráticas, queriam conhecer a nova metodologia, comparar com o que já sabiam, verificar os avanços, a diferenciação, saber mais, qualificar seu cotidiano clínico existencial.

Em Porto Alegre, por exemplo, o curso era oferecido exclusivamente pelo Instituto Packter, que acolhia pessoas da capital gaúcha do interior do estado e colegas e amigos que vinham residir, por algum tempo por aqui para estudar Filosofia Clínica, onde tudo começou.

Algumas distinções fundamentais da Filosofia Clínica para outras abordagens clínicas: inexistência de tipologias, conceitos como normal e patológico são conceitos políticos (Michel Foucault), trabalha com singularidade, possui os exames categoriais como ponto de partida para conhecer a pessoa a partir de seu mundo como vontade e representação, busca visualizar e interagir o melhor possível a Estrutura de Pensamento do sujeito Partilhante, alguém que compartilha um espaço de terapia, a fundamentação teórica é a Filosofia, a Literatura, em pensadores como: Schopenhauer, Foucault, Gadamer, Merleau-Ponty, Heidegger, Bachelard, Kant, Hume, Spinoza... também Arthur Bispo do Rosário, Artaud, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoas, Lúcio Packter, Maria Luiza Nascimento, Will Goya, Mônica Aiub, Mariluze Ferreira, Márcio José Andrade e Silva, Idalina Krause, José Maurício de Carvalho, Rosângela Rossi, Ildo Meyer, Pablo Mendes, Claudio Fernandes, Gustavo Bertoche, Valéria Sayão, Miguel Angelo Caruzo, Bruno Packter, Margarida Nichele Paulo, Mariza Niederauer, Gláucia Tittanegro,.... Podem apostar que essa lista está incompleta! Devo ter esquecido pessoas importantes.... Hoje somos cerca de 15.000 Filósofos Clínicos, dente formados e em formação. É o que acontece quando alguém se atreve a querer lembrar nomes....fazer o que ? Incompletudes...!

A fundamentação prática é baseada nas atividades de consultório existentes e por vir. Sim existe uma fundamentação prática em nossa área de atuação, algo desmerecido por boa parte dos estudantes e pesquisadores, que se preocupam, eminentemente com a fundamentação teórica, ou seja, as leituras, definições, trama conceitual, em detrimento dos desdobramentos empíricos da atuação clínica, o dia-a-dia dos atendimentos, que elabora uma matéria-prima invulgar e também sustenta o saber fazer e refletir do Filósofo Clínico!

Depois os encontros nacionais continuaram existindo, com menos força e representatividade, mas com igual qualidade discursiva. Novos eventos começaram a aparecer, como resultante dos desdobramentos das práticas, das interseções regionais, do avanço dos estudos e práticas, inclusive reescrevendo os cadernos iniciais de Lúcio Packter.

Alguns exemplos superados das primeiras edições dos cadernos, resultante do aparecimento dos novos estudos e práticas: 1) O termo psicoterapia filosófica, usado inicialmente, foi melhorado por Filosofia Clínica; 2) O tempo da clínica inicial, aquela que cuida do assunto imediato, inicialmente se acreditava que cerca de 20 min bastariam para dar conta da queixa inicial, hoje se sabe que o assunto imediato possui desdobramentos fundamentais para a qualificação da interseção, da situação e conforto do partilhante no espaço onde acontecem as clínicas, inclusive com uma elaboração provisória da estrutura de pensamento e submodos já a partir desse instante inicial, que agora, se sabe que pode perdurar por 2, 3, 4 sessões, o tempo que for preciso, enquanto a questão inicial tiver força... 3) Algumas advertências iniciais caíram por terra, como: a impossibilidade do Filósofo Clínico trabalhar em Hospitais Psiquiátricos, com estrutura de pensamento desestruturada, raciocínio desestruturado, discurso incompleto....hoje se tem uma clínica de qualidade, quando se permitem a participação do Filósofo Clínico com autonomia em asilos psiquiátricos, ainda dominados, basicamente, pelo poder da caneta alienista e a indústria farmacêutica! 4) A Filosofia Clínica  de hoje está estruturada de acordo com as interseções regionais, ideologias, interesses culturais, buscas... o Instituto Packter, por exemplo, nos dias atuais, possui outras atividades como prioridade... 5) Hoje se sabe que as interseções tópicas na Estrutura de Pensamento, que se situam à margem (na periferia) do assunto último, também podem vir a ser significativas na atividade; 6) Autogenia, até meados de 2009 era um termo quase desconhecido da maioria, desmerecido até, por se tratar das mudanças, movimentações, ressignificações existenciais internas, externas na Estrutura de Pensamento.

Nesse sentido, historicamente sugiro ler a obra: Diálogos com a Lógica dos Excessos, publicação da e-papers em 2009. Depois dessa publicação veio à tona um estudo mais aprofundado das autogenias, inclusive com um batismo peculiar de autogenia: horizontal, vertical, transversal (transcendental..?), nalguns casos com forte conotação religiosa... para quem aprecia, parece que ficou bem legal! 7) A lista de avanços em razão dos atendimentos, pesquisas teóricas na Filosofia Clínica é interminável...

Em muitos centros de formação, ainda se usa os cadernos iniciais do Instituto Packter, como uma homenagem ao iniciador do novo paradigma: Lúcio Packter, pensador da Filosofia Clínica. Mas novas publicações se associam ano a ano, qualificando os fundamentos iniciais da clínica filosófica. Por outro lado, alguns fundamentos iniciais ainda permanecem: como os três estágios fundamentais da terapia: Exames categoriais, estrutura de pensamento, submodos. Hoje com múltiplas derivações, acréscimos, desdobramentos.

Depois desse sobrevoo chegando a alguns fatos dos dias de hoje, na próxima vou retornar ao início dos anos 2000, sem deixar de rascunhar aquilo que vai surgindo, como livre associação dos conteúdos, temas que possuem um início sem fim!  

Continua (...)

*HS