sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*












Por volta de 2003 na cidade de Uberlândia, com a abertura da primeira turma da Formação, se aproximaram inúmeros talentos vocacionados para a nova abordagem terapêutica.

Pessoas diferenciadas no quesito sensibilidade, acolhimento, dedicação aos estudos, disciplina... Dentre os vários nomes, quero destacar alguns que representam essa safra de Filósofos Clínicos do triângulo mineiro: Mário Alves, que coordenava a Filosofia na Universidade Católica, Pablo Mendes que hoje reside e trabalha em Porto Alegre, que tinha cursado, um pouco antes, Filosofia Clínica em Divinópolis.

Esses dois protagonizaram um estágio supervisionado extraordinário, foram atender os partilhantes em estágio terminal no Hospital do câncer na UFU (Universidade Federal de Uberlândia). Lá conquistaram a equipe com seu carinho, aptidão, cumplicidade no cuidado e atenção à vida em seus dias finais por aqui.

O prof. Mário Alves, um baiano radicado em Minas Gerais, junto com Pablo, conta a seguinte história de um dos atendimentos: Um partilhante com seus dias contados (acho que todos nós estamos com eles contados.... os dias!?) indicava claramente uma busca de realizar uma ultima pescaria. Como ele estava acamado e sem poder sair dali, os queridos colegas montaram uma operação de guerra junto com a enfermagem e médicos, para realizar o ultimo sonho.

Lá se foram eles na pescaria, num carro adaptado e com a assistência de toda a equipe, um feito inédito, que ainda precisa ser recontado pelos protagonistas, com o requinte de detalhes que o evento merece. No dia da pescaria o partilhante não tinha dores, falava bastante, queria saber se Mário e Pablo tinham providenciado todo o material: anzóis, iscas, barracas (eles não acamparam, o passeio durou algumas horas apenas... no tempo do relógio, é claro!) inclusive a pinga mineira..., tudo já estava arranjado e lá se foram rumo às águas dos peixes. Não se sabe ao certo se pegaram alguma coisa, se tem notícias de que o Partilhante contava várias histórias de outras pescarias... realizaram mais um sonho.

Na semana seguinte ao atendimento, quando chegaram ao hospital, Mário e Pablo, foram ao quarto para a terapia semanal. Encontraram a cama vazia, o quarto arrumado, higienizado, janelas abertas à espera do próximo...

Essa intervenção dos colegas mineiros foi algo fantástico, como ainda não se tinha notícia! Hoje se vê a admissão de cachorrinhos e gatinhos em alguns hospitais... parece que a medicina ainda busca encontrar sua identidade (humanidade) perdida.

Os Filósofos Clínicos seguiram atendendo nos hospital por algum tempo ainda, logo depois aconteceu por lá o que costuma acontecer na maioria dos locais onde a Filosofia Clínica começa a mostrar seu trabalho, ter o reconhecimento da sociedade nalguma instituição, ou seja, é vítima fatal das estruturas de poder, invejas, ressentimentos, disputas....  momentos em que a estrada nos acolhe novamente. Me parece que palavras como diálogo e prática interdisciplinar, transdisciplinar ainda não encontram repercussão no cotidiano institucional.  

Outro exemplo dessa época é o trabalho iniciado pelo Marco Aurélio, Maíra... com o Projeto Emcantar. Algo extraordinário, que acolhia e trabalhava com crianças da periferia da cidade (cerca de 1.000). Eles buscavam nas escolas os candidatos para o projeto, que tratavam de compartilhar musica, dança, teatro.... socializando um saber com mais sabor!

Com um patrocínio de algumas instituições o Projeto Emcantar cresceu e acolheu várias gerações. Hoje, se estou bem informado, já tem cerca de 20 anos também.... realiza shows com o grupo por todo o Brasil, tem cd’s gravados e continuam acolhendo e cuidando das crianças em situação de vulnerabilidade social (a expressão correta da hora!). Nossos queridos Marquinhos e Maíra contavam que a Filosofia Clínica era um dos fundamentos do Projeto inicial.

Assim seguiram os dias e noites pelo imenso território mineiro. Não existe uma Minas Gerais, são muitas Minas Gerais, por exemplo: você vai ao triângulo mineiro, e sente uma influência de São Paulo, do lado da zona da mata, Juiz de Fora, sente a brisa do mar carioca, na região norte os ares da Bahia.... uma festa com uma gente singular, talentosa! Alguém já disse por aí que o mineiro é o diplomata do país. Eis um papel que lhe cabe como mão e luva!

Continua (...)

HS