segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*

                                      
Hoje vou falar um pouco da interseção em Filosofia Clínica. Existem ao menos 04 espécies de interseção: positiva, negativa, mista, confusa/indeterminada. Essa nomenclatura refere-se ao relacionamento entre pessoas no espaço clínico, mas, também, diz respeito ao relacionamento dos tópicos determinantes na estrutura de pensamento do sujeito partilhante e do Filósofo, quando em relação direta ou indireta.

Esse fenômeno é singular e reivindica do Filósofo uma atitude de aproximação cautelosa do mundo como representação da pessoa sob seus cuidados, junto com uma adequada verificação de sua própria estrutura em funcionamento no papel existencial cuidador, via de regra pela própria epistemologia.

Compreender seus desdobramentos existenciais, as linguagens de que a pessoa se utiliza para existir, coexistir, seu lugar existencial (interno e externo), os tempos (subjetivo e objetivo), os significados e todo o aparato estruturante que constitui a pessoa como fenômeno único, irrepetível. Isso tudo a partir do imprescindível momento dos exames categoriais, de onde se pode acessar a matéria-prima que a pessoa tem consigo, como desdobramento de seu percurso existencial até aqui.  

A interseção, característica do encontro terapêutico, costuma sofrer mudanças no curso do processo clínico. Muitas vezes pode iniciar mista e migrar para positiva, depois negativa, voltando à positiva e assim por diante... dependendo dos conteúdos trabalhados, dos percursos pela subjetividade, historicidade narrada de forma circunstanciada pelo partilhante, usualmente afinada com a qualidade da interseção com seu clínico.  

Entender essa dialética da interseção pode ser um dos aspectos decisivos da boa clínica. Muitas vezes o aprendiz (na fase da supervisão) se espanta com um início difícil, onde o partilhante, por motivos próprios ou externos a si mesmo, pode fugir da terapia. Nada tendo a ver com a atividade clínica, ao menos diretamente. Pode não estar preparado para encontrar-se consigo mesmo, explorar seus territórios internos, deslocar-se por seus jardins, sombras, explorar novos territórios ou manter (melhorando) o que já existe.  

Esse fato é tão significativo que, alguns Filósofos nessa etapa inicial da prática em consultório, abandonam os estudos, mesmo quando tem um bom supervisor ao seu lado, como ponto de apoio, cumplicidade, clínica didática... Parece que a formação clínica reivindica uma caminhada existencial peculiar, anterior aos estudos da teoria e prática do Ser Filósofo Clínico.

Também acontece da interseção começar positiva e permanecer assim até o instante de alguns enraizamentos (lembranças) efetuados pelo partilhante ou pelo Filósofo, quando tudo pode começar a balançar. Muitas vezes é impreciso alguma coragem para prosseguir na terapia. Tenho testemunhado muitos exemplos de gente corajosa que seguiu até o fim do seu processo terapêutico, atravessando as pontes, superando obstáculos que, naturalmente costumam surgir como desdobramentos dessa clínica. Existem aqueles casos em que a interseção é tão positiva que pode acontecer algo como o filme: “A máfia no divã” com o grande Robert de Niro, que era um chefão da máfia, se bem me lembro... vai buscar auxilio clínico e fica dependente de seu terapeuta.

Noutras vezes, o partilhante pode se apaixonar pelo seu Filósofo Clínico, como não existem receitas prontas em nossa atividade profissional, deve-se cuidar da interseção, estudar apropriadamente a estrutura de pensamento, utilizar os procedimentos clínicos de acordo com a singularidade. Em muitos casos esse fator, por si só, pode auxiliar a frequência à terapia, noutros pode significar seu término, tendo o Filósofo que encaminhar a pessoa a um colega para prosseguir o trabalho.

O que não quer dizer que não possa existir uma paixão ou um amor de lado a lado da interseção! Bom, nesses casos, interrompe-se o processo clínico e o casal deve assumir a relação, indo direto para o altar, morar juntos, elaborar planos, buscas, fazer filhos, essas coisas que as pessoas (algumas delas!) fazem quando se encontram, se casam e se gostam. Outras fazem outras coisas...

No entanto, o processo clínico acaba aí. Indica-se que o Filósofo faça uma atualização da sua estrutura de pensamento (atualize sua terapia) e encaminhe sua companheira a um colega para continuidade do trabalho.

Outro aspecto interessante na questão da interseção se refere ao fato de que são fenômenos irrepetíveis, quanto a qualidade especificamente, ou seja, uma interseção com a mesma pessoa pode variar de sessão para sessão. O estado de espírito do Filósofo também pode oscilar de uma clínica para outra, dependendo das pessoas envolvidas no processo. Alguns podem reivindicar um Filósofo Clínico mais sensível, inclinado à poesia, às coisas da estética... Outros vão querer alguém que dê limites! Que estabeleça objetivamente os rumos do processo, e por aí vai...

As variáveis da interseção podem ser tantas quantas são as pessoas envolvidas no processo terapêutico. Poderíamos ficar horas, talvez dias e dias falando sobre o tema. Não tenho a pretensão de esgotá-lo, apenas fazer uma breve introdução. Hoje com o número de Filósofos Clínicos no país, acredito que os exemplos se sucedam as centenas, talvez milhares de exemplos, todos eles singulares!

(...)

Um abraço,

HS