domingo, 22 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*


Em algum lugar de abril e maio de 1998, na cidade de Divinópolis/MG, aconteceu a palestra de abertura da primeira turma da Formação na cidade. O evento aconteceu no INESP (Instituto de Ensino Superior e Pesquisa), depois encampado pela Universidade Estadual Mineira. Fonte: Jornal “A Semana” de Divinópolis.

Nessa época conheci muita gente interessante. Dentre elas, a inesquecível Irene Amaral, professora de Filosofia da Instituição e Coordenadora do evento na cidade. Irene foi colega de turma na Filosofia da poetisa Adélia Prado. Irene lecionava filosofia da arte, epistemologia da psicologia e psicomotricidade na instituição. Ela foi uma das fundadoras da instituição mineira!

Tive a oportunidade de trabalhar com duas turmas na cidade. Vinham alunos de toda região e do triângulo mineiro (umas 08 horas de carro), de Uberlândia vinham Paula, Veridiana, Pablo e Carlos para as aulas de Filosofia Clínica, os quais, de forma corajosa e talentosa, concluíram os estudos (na época 24 meses da parte teórica). Seguiram com os estágios em Uberlândia, quando a formação chegou por lá, logo depois.  

Depois disso, quando a turma passou para a coordenação dos colegas formados, tivemos um fato que chamou a atenção e causou um enorme espanto a todos: Irene Amaral, professora fundadora da instituição, foi demitida da Universidade que ajudou a fundar! Esse fato revoltou a comunidade de professores e estudantes. Um de seus ex-alunos, que também veio cursar Filosofia Clínica, sob a alegação de que a professora estava ultrapassada, não tinha continuado seus estudos... liderou a demissão.

No entanto, Irene era muito maior que isso tudo! Uma gigante filosófica, precursora da Filosofia e Filosofia Clínica na cidade, uma mulher a frente de seu tempo! As últimas informações que tive era de que Irene tinha uma escolinha particular e continuava atuando como sempre fez, com o carinho, sensibilidade e humanidade que caracterizavam sua singularidade.

(...)

Noutra direção, gostaria de esclarecer minha inconformidade com o uso ideológico (no sentido de Gramsci, de ocultação dos fatos, da verdade...) de algumas expressões, as quais tentam, ainda hoje, denegrir os novos paradigmas, técnica usada por algumas faculdades e escolas de medicina, odontologia, psicologia... ou seja, cunharam expressões como: medicina alternativa ou prática alternativa, cuidados paliativos, para as novas abordagens clínicas: Homeopatia, Acupuntura (antes de ser apropriada pela medicina), Florais de Bach, Reiki, Filosofia Clínica, Psicopedagogia, Psicanálise ... No caso da medicina, por exemplo, parece que esqueceram suas fontes, seu começo, como barbeiros, feiticeiros, xamãs...!?  

A ideia me parece que era desconstituir as práticas, nessa altura já legitimadas por seu alcance e propriedade junto às comunidades! Nesse sentido, a busca dessas escolas que estavam ficando (e continuam ficando!) para trás (universidades, faculdades...), pela pesquisa e atuação de institutos privados (com mais liberdade de ação, recursos, estudos, pesquisa...), buscavam, por força de lei, alguma regulamentação (tábua de salvação) por algum cartório ou conselho que legalizasse, dissesse o que podia ou não valer, o que era acreditável ou não, através de decreto. Essas novas abordagens, ainda hoje, são tratadas pelas instituições ‘oficiais’ como subalternas, alternativas, paliativos...!? Sugerindo, sub-repticiamente, ineficácia, desmerecimento.

Cabe lembrar de gênios como Freud, acusado de charlatanismo e expulso da sociedade de medicina de sua época, por pensar a psicanálise. Também Jung, médico psiquiatra e pensador e desenvolvedor da psicanálise foi acusado de bruxaria e charlatanismo, dentre outros, muitos outros!

Talvez não tenha sido por acaso que Santos Dumont (por incrível que pareça, um brasileiro!) tenha escolhido Paris para seu primeiro voo, possivelmente escolhera terras livres para apresentar seu sonho tornado realidade. Aqui na capital gaúcha o Pe. Landell de Moura, inventor do rádio, por não ter o cuidado de registrar/patentear seu invento (as transmissões pelo rádio), perdeu as honrarias para outra pessoa do lado de lá do Atlântico.

Inicialmente o multi talentoso Woody Allen viu seus filmes incompreendidos, vulgarizados em seu país. Buscou refúgio mostrando sua obra na França, onde foi acolhido, compreendido, amado. Bem depois os demais (países) entenderam a obra desse mestre do cinema.

Interessante notar a miopia, a surdez, da maioria dos alunos (e de alguns de seus mestres) da graduação e pós-graduação sobre o tema do novo paradigma e seus precursores (ainda mais pelos contemporâneos!). Não questionam o uso dessas expressões ideologizadas: práticas alternativas, cuidados paliativos... ou seja, as escolas tradicionais, buscam esconder sua fragilidade, o medo, a insegurança, por trás de um carimbo do notário. Me parece que esse processo começa na escola fundamental, ensino médio, onde as ovelhinhas são treinadas para fazer múltiplas escolhas num vestibular... depois isso continua pelo resto da vida!

Ainda assim, as coisas prosperam, hoje a Filosofia Clínica (ainda jovem, com cerca de 25 anos de existência) está presente em várias faculdades e universidades do país, o que não significa que esses centros sejam centros de formação clínica de excelência, ok ? Alguns possuem qualidade, maestria, outros são cursos caça-níqueis, como tantos casos, nesse país vocacionado para continuar como nasceu: colônia!

Algumas pessoas, desavisadas, talvez, se espantam (no pior sentido da expressão!), pelo fato de um Filósofo Clínico ter capacidade de fazer crítica, análise, reflexão sobre fatos da realidade, do cotidiano, das instituições, pensar sobre o viés ideológico da vida... Ora, antes de mais nada, basta entender que nossa fonte de saber é a Filosofia!

Na próxima cartinha vou falar um pouco da incrível experiência de trabalhar na Casa de Saúde Esperança (hospital psiquiátrico) em Juiz de Fora/MG, a partir do ano de 2006, se não me falha a memória. Dirigido pelo incrível médico Dr. Iran e o que significou aqueles anos de convívio para o desenvolvimento da pesquisa da linguagem em Filosofia Clínica, abrindo campos de estudo e trabalho até então inexistentes.

Um abraço,
*HS

Continua (...)