segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*

                 
No ano de 2006, em razão da minha atividade como Professor e Filósofo Clínico, mudei do Rio de Janeiro para a linda cidade da zona da mata mineira: Juiz de Fora. Naquela época a fábrica da Mercedes Benz ainda estava a todo vapor, fabricava, se não estou enganado, o modelo classe ‘A’, além de caminhões, vans...

Fui morar num flat, como de costume, carregando as poucas coisas que tinha: um computador, escassas roupas, uns livros... uma vida cigana. Sempre me fez bem ter a estrada, a liberdade, o amor por companhia. Além das pessoas incríveis, os amigos queridos que tinha oportunidade de ter.  

Em frente ao prédio onde morava, tinha o churrasquinho do Gaúcho, um conterrâneo que migrou de Carazinho/RS para Juiz de Fora/MG, lá casou, teve seus filhos e foi ficando....segundo ele já vivia há cerca de 15 anos na cidade. Sua combinação de churrasco gaúcho com uma cervejinha bem gelada mantinha o boteco lotado!

Nessa época as aulas já aconteciam na Faculdade Católica (CES) junto ao Seminário Diocesano (acho que a expressão correta é essa...), o prédio lindo ficava no meio de uma mata nativa. As aulas dialogavam com o silêncio da mata, o canto dos passarinhos, o céu azul de brigadeiro.... Não era raro um pássaro pousar na janela da sala, reivindicando uma justa interrupção dos trabalhos.

As atividades práticas aconteciam em meio as trilhas da mata, ao redor da piscina, pelos corredores do imenso prédio... Nessa época o Coordenador do curso de Filosofia era nosso aluno na Formação Clínica: o prof. Rodrigo Alvim, um mestre amado por seus alunos! Daqueles professores que ensina até quando aprende. Inesquecível por todos nós!

Nesse período surgiu um convite para conhecer um dos hospitais psiquiátricos da cidade, se bem estou lembrado, tinha uns 3 ou 4... (hospitais). A Casa de Saúde Esperança ficava na Vila Ideal (sim o nome é esse mesmo!), num morro em meio a muita pobreza econômica, desamparo, violência... Nossa chegada, sim nossa, pois sempre procurava levar os alunos interessados no tema, para conhecer, aperfeiçoar a prática clínica, desenvolver a teoria na atividade clínica dentro dos hospitais psiquiátricos.

Nossa recepção foi singular pelos irmãos que cuidavam do lugar: o médico Iran e a administradora Irani, esta, logo depois, foi cursar Filosofia Clínica conosco. A Casa de Saúde Esperança nos acolheu de forma amiga, familiar.... Lá ficamos por quase 05 anos... até a morte do Dr. Iran e a venda da instituição para um grupo do Rio de Janeiro.

Como sempre privilegiamos a interseção positiva, a segurança e a transparência nas relações, assim entendemos que o Hospital não oferecia mais as condições de harmonia que tínhamos quando chegamos, na administração do Dr. Iran e sua equipe.

No período dos atendimentos naquele Asilo Psiquiátrico, foram muitos os aprendizados, partilhas, acolhimentos, alguns eventos foram registrados pelas alunas, liderados pela Cida e Paula. Uma aula sobre atendimento clínico às pessoas com raciocínio desestruturado, discurso incompleto, dificuldades significativas na semiose...

Desse tempo surgia a necessidade de emancipar os estudos da Filosofia Clínica (do primeiro Packter), mantendo, no entanto, a estrutura básica do paradigma (Exames categoriais, estrutura de pensamento, submodos), ampliando assim, as possibilidades da atuação clínica com pessoas desestruturadas, incompletudes discursivas, linguagem singular, abandonadas, exiladas existencialmente, desmerecidas pelo convívio social comunitário.

Nesse tempo nossa busca por cuidar dos excluídos se fortaleceu e se desenvolveu! Em 2009 vai aparece o texto: Filosofia Clínica – Diálogos com a lógica dos excessos, pela e-papers do RJ, como resultante desse aprofundamento do convívio com as pessoas em situação de abandono (direto ou indireto) por suas famílias. Sentia que o método pensado por Lúcio Packter era fantasticamente inovador, no entanto, ainda podia ser melhor explorado, no sentido de ampliar o leque de ações clínicas, qualificar o sentido da expressão ‘singularidade’, interagindo e cuidando de pessoas com desestruturações graves.

Atendíamos no gabinete do Dr. Iran. Participávamos das Semanas de Enfermagem, compartilhando os atendimentos com os colegas das demais abordagens como: enfermeiros, médicos psiquiatras, serviço social, artes plásticas (impossível não lembrar da querida e talentosa Márcia Linhares!)... Dessa época temos algumas fotos registrando os encontros, atendimentos, vivências e convivências no Hospital psiquiátrico.

Mesmo depois, quando mudei para São João del Rei, os atendimentos continuaram, viajávamos num pequeno grupo, para Juiz de Fora para os atendimentos didáticos, era assim que chamávamos, pela dimensão clínica e pedagógica das terapias realizadas nas diferentes alas do hospital. Existem gravações dessa época, na forma de cd’s, compartilhados em algumas aulas (com a devida autorização) apenas.

Existe uma curiosidade dessa época, algo que aconteceu no pátio do Hospital, e que gostaria de compartilhar com vocês, algo que me deixou profundamente feliz, realizado, agradecido!: Numa das tardes dos atendimentos, no período das visitas na instituição, uma senhora puxou conversa e ficamos a trocar ideias, ela falava como a vida poderia ser uma coisa boa e eu concordava... notei algum receio da parte dela, uma certa cautela no uso das palavras, na expressão do corpo...mas, por ali, nada era muito normal! Então era normal ser anormal, ok ? Em seguida surge a diretora Irani e me abraça, dizendo que eu era da equipe clínica do hospital, um Filósofo Clínico.... aí comecei a entender melhor... a senhora que falava comigo havia me confundido com os internos, pois eu não usava jaleco (uma das raras distinções entre normalidade e loucura!). Ela dizia: eu pensei que ele era um interno... Eu me desculpei por não estar de jaleco e procurei tranquiliza-la...!? Vida que segue...

Dr. Iran era um médico talentoso, sensível, vocacionado para a medicina, emancipando o sentido da expressão! Para se ter uma ideia: ele costumava, ao passar pelas ruas, encontrando alguém sentado, caído, abandonado nas calçadas ou pontes da cidade, colocava a pessoa no seu carro e levava ao seu hospital, para ser acolhido, com um banho, uma refeição, e demais cuidados que fossem necessários.... a pessoa decidia se queria continuar ou não na casa... a maioria ficava, a lotação da Casa de Saúde Esperança sempre excedia os limites de sua população. O médico filósofo vendeu duas propriedades (fazendas) para manter o Hospital funcionando, já perto do fim.

É dessas pessoas raras, como Dr. Iran e nossa saudosa Irani, que a Filosofia Clínica se abastece, aprende, compartilha, se junta na imensa caminhada de acolher, cuidar, amar os exilados, destituídos de qualquer condição humana. Gratidão!

Um abraço,

HS     (Continua...)