sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*


"(...) A Filosofia Clínica não é para todo mundo! Não é uma panaceia! Não é a resposta geral para todas as coisas!” in Lúcio Packter num vídeo produzido por Idalina Krause e Suzana Porto Alegre nos idos dos anos 90 na capital gaúcha.

Ainda hoje essas expressões soam como incógnita para muita gente. Ora, como assim a Filosofia Clínica não é para todo mundo ? Quanto a não ser uma panaceia tudo bem, não ser a resposta geral para todas as coisas também é tranquilo entender.

Parte dessa questão reside no conceito de singularidade, que reivindica um método próprio para permitir uma aproximação com o fenômeno em questão. Algumas pessoas já usam a expressão singularidade, no entanto, basta uma breve continuidade de seu discurso para desdizer sua afirmação inicial, ou seja, fala-se em tipologia, classificação, neuroses, psicoses, loucura .... Ora, a singularidade destitui o saber poder amparado na classificação conhecida (DSM-IV, V...), para início de conversa.

Você já experimentou pensar sem alguma tipologia ? Viver sem tipologia ? Conviver sem tipologia ?

Então, voltando de onde não saímos, dizer que a Filosofia Clínica não é para todo mundo, me parece uma mensagem de um método clínico que entende a escolha do sujeito partilhante. Entre ser partilhante (sujeito), paciente, ou qualquer outra coisa (objeto). Noutras palavras, mesmo sendo uma escolha desavisada, na maioria das vezes, a pessoa em seus instantes de dor e sofrimento, pode escolher uma abordagem que lhe seja fatal, ou não.

Por outro lado, como acontece na maioria das vezes, pela desinformação ideológica (ocultada deliberadamente das pessoas), num país (ainda) colonial, dependente como o nosso, onde falar ingrêis é considerado de alto nível, algo sofisticado, emancipador até... Não vou entrar aqui na importante questão da chamada globalização política (isso existe ?), pois a econômica existe desde sempre, a cultural quase nunca.

Continuando sobre o fato de a Filosofia Clínica não ser para todo mundo, o Filósofo pensador da Filosofia Clínica emite uma sentença significativa, fundamental, inclusive para se entender que a formação clínica pode ser insuportável para muita gente, enquanto que, para outros, pode ser uma redenção. Noutros casos, muitos encontrarão alívio para suas dores existenciais na medicação psiquiátrica, sequer tangenciando suas causas.

Assim, não ser a Filosofia Clínica para todo mundo, ajuda a entender ainda mais o conceito de singularidade, pelo qual nos desdobramos existencialmente em nossos dias por aqui (na vida). O que isso significa ? Que estamos diante de um novo paradigma, uma nova linguagem, um novo olhar sob a condição humana. Sob muitos aspectos refutado antes mesmo de ser conhecível, pois parece abalar a estrutura frágil de algumas instituições seculares que abortam toda novidade que não seja espelho.

Essa expressão também me parece ser uma advertência, uma indicação de cautela, no que diz respeito a não ser Filosofia Clínica uma terapia conselheira, de auto/hetero ajuda, não usa psicologia, psicanálise, psiquiatria, não interna ou realiza intervenções cirúrgicas, a fundamentação teórica é a filosofia... Possui luz própria e está em pleno desenvolvimento, em que pese seus mais de 20 anos de serviços prestados por todo o país. Pelo talento, sensibilidade, aptidão de profissionais ainda desconhecidos do grande público.

Nesse sentido, uma das distinções mais significativas, em relação as demais abordagens terapêuticas é o conceito e a prática voltada para a singularidade. Tendo como ponto de partida os exames categoriais e a estrutura de pensamento, os submodos (procedimentos clínicos), via de regra, são encontrados na própria estrutura singular do partilhante.

Numa sociedade massificada, onde quase 300.000 estudantes (?) zeram a prova de redação do Enem (2017), o que se pode esperar ? Voltada para o consumo desenfreado, como busca geral para todas as coisas, quando muita gente abre mão de sua condição humana para ser objeto, não causa surpresa o numero de farmácias em cada esquina do Brasil.

A mensagem da Filosofia Clínica, contraditória com isso tudo, é uma mensagem de amor, acolhimento, paz, poesia existencial, compreensão com a condição singular presente em cada um, mesmo quando a desmereça em detrimento de alguma bugiganga existencial.

(...) continua

Um abraço,

HS