domingo, 29 de janeiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*



Outro dia acessei um blog (ou seria site... ?) falando do termo: ‘Filosofia Clínica’. Os autores davam a entender que a expressão era antiga, já utilizada por outros pensadores, autores....e que não era uma clínica da cura (no sentido de tentar desmerecer!).

Ora, ora, ora que interessante aqui se recuperar o conceito de vontade e representação de Schopenhauer, para nos acudir nesse instante, ou seja, cada um fala, pensa, diz a partir de seu mundo como vontade e representação. De suas experiências, da sua janelinha existencial, que aparece como totalidade aos olhares incautos, desprevenidos. Eu estou fazendo isso mesmo agora, falando da minha janelinha, ao escrever algumas notas reflexivas sobre o tema... talvez a diferença seja de que tenho ciência de que é uma janelinha em meio a tantas outras...

Como assim ? Filosofia Clínica não cura ? Não, não cura, não prescreve medicação, não interna, não trabalha ou reconhece conceitos como normal x patológico, trabalha com a singularidade em método próprio (Filosofia Clínica). Por que não cura ? Porque não tem o que curar! O que se cura nessa vida ? Nada! Não há o que curar, no fundo de todas as coisas ainda somos reféns da mãe natureza, em que pese as conquistas esfuziantes da tecnologia e de seus manuseadores... Aqui estamos num mergulho profundo, distanciados das águas mais rasas.

Inexiste cura em Filosofia Clínica por se tratar de intervenções no curso natural dos eventos, desconstruções, reconstruções... na dialética da vida. Assim o Filósofo Clínico, quando chamado, realiza aproximações, acolhe, busca compreender o fenômeno humano diante de si (com método próprio!). Não se trata de aconselhar, medicar com alopáticos (isso é ato médico!), prescrever leituras filosóficas, realizar cafés filosóficos (onde se costuma resolver os problemas do mundo na mesa de bar...), nada disso. É trabalho contínuo, onde se realizam construções compartilhadas.

Esse profissional, uma raridade no Brasil (em dedicação exclusiva!) em que pese a profissão não ser reconhecida, assim como muitas outras no país (no meu entendimento uma virtude!), é alguém disposto a cuidar, acolher, transitar pelos jardins da subjetividade alheia, aprendendo como fazer para cuidar mais e melhor, a partir do mundo como representação do partilhante.

Então curar o que de quem ? Talvez essa promessa (eternamente não cumprida!!) seja causa de dissabores para as profissões que acenam com alguma cura no processo existencial. Imagino o sofrimento de um jovem médico, por exemplo, que aprende que vai ‘curar doenças’, com os rituais que estuda na escola de medicina... diante da dura realidade no seu dia a dia no hospital.

A vida como ela é (Nelson Rodrigues) costuma oferecer uma face difusa, estranha, diante da pretensão, arrogância presente nalgumas escolas de medicina. É possível que se aliviasse o sofrimento da classe médica, se ensinasse humildade junto ao aparato técnico avassalador, o qual transforma pessoas em pacientes objeto de investigação, corte, costura. A mãe natureza parece se divertir diante dessas pulguinhas tecnológicas, seus jalecos, bisturis e demais promessas não cumpridas.

Em Filosofia Clínica nada se promete. Se precisar prometer alguma coisa prometa trabalho! Trata-se a pessoa em sua circunstancia existencial, lugar, tempo, interseções... pra começo de conversa. Não oferece cura (curar de que ? da vida ?), não reconhece conceitos como normal x anormal, doença... Esses conceitos segundo Michel Foucault são termos ideológicos, que mascaram intencionalidades, significados. Manipulam o verdadeiro discurso da realidade.

Sei que é difícil desconstruir uma tradição de pensar, falar, conviver com tipologias, no entanto, nalgum momento se terá de avançar para além da idade média (ainda presente em muitos recantos por aí...), da pré-histórica (em que pese o aparato cada vez maior de bugigangas tecnológicas...) que servem, dentre outra coisas, para anestesiar o fenômeno humano em possibilidades de autoconhecimento, mudança, a busca por viver melhor dentro de seu contexto, o qual, muitas vezes, sequer escolhe (?), pois isso tudo já tem um jeito próprio antes de se nascer.

Então vamos combinar: antes de falar ou escrever sobre Filosofia Clínica (aquela pensada, iniciada por Lúcio Packter...) cuide de saber mais, estudar, conviver com algum centro de formação (trate de conhecer bem qual deles você vai escolher, ok ?), se aproximar do incrível e inédito método da Filosofia Clínica que praticamos e, sim, é um feito brasileiro, sinto muito desapontar quem não sabia!!

Um abraço,

Continua (...)

HS