sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


No final dos anos 90 tive a oportunidade de trabalhar (por uns 03 anos) num morro da zona sul em Porto Alegre, onde se localiza a Vila Alto Erechim, uma comunidade com cerca de 2.000 moradores (na época), a maioria residindo em barracos, puxadinhos, abrigos provisórios. O local mais estruturado no lugar era a creche comunitária, onde as mães deixavam seus filhos para ir trabalhar, muitas trabalhavam em “casa de família” (essa era a expressão usada).

Fui levado por um ex-partilhante e amigo (um ex-marinheiro francês, testemunha da guerra do Golfo). Ele, inicialmente perguntou se eu gostaria de conhecer o lugar e aceitei. Chegando lá, eles ofereciam semanalmente um sopão aos moradores e, principalmente às crianças e velhos. Foi paixão a primeira vista!

Só saí de lá quando o lugar ganhou da prefeitura uma casa enorme, onde seria o novo endereço do PSF da Vila Alto Erechim, aí já com toda uma estrutura para atender a comunidade: enfermeiras, médicos, assistentes sociais... Tentei convidar alguns colegas na época, para continuar o trabalho, pois estava assumindo mais trabalho (divulgar a Filosofia Clínica) fora da capital gaúcha. Ninguém conseguiu lugar na agenda para trabalhar no PSF.

Nessa atividade junto ao pessoal da Vila, tive um convívio singular, espetacular, de múltiplas trocas, aprendizagens, ensinamentos compartilhados. No início os atendimentos da clínica de grupo, aconteciam na própria creche, eu chegava para trabalhar por volta as 18hs, quando as mães retornavam do trabalho e buscavam seus filhos. Meu trabalho era coordenado pela Associação de Moradores.

Esse período teve muitas curiosidades, por exemplo: um dia estávamos trabalhando com um grupo de 12/13 mulheres da comunidade, num semi-círculo, a sala era de chão batido, todos muito animados com os primeiros resultados da clínica. Durante a fala de uma das integrantes, vejo um pequeno vulto caminhando atrás das pessoas na parede em frente... um ratinho. Logo depois veio outro, um pouco maior (pensei se tratar da mãe dele...), oras, ali era uma creche, não era ?

Uma das colegas da clínica (partilhante) viu que eu tinha visto e falou: não fica preocupado não ‘doutô’, eles não fazem mal a ninguém, moram por aqui mesmo, são da vizinhança. Assim continuamos com tranquilidade, naquela noite não apareceu mais ninguém, algum ser ou objeto estranho. Era tudo gente de casa!

Os atendimentos eram semanais e contava com a ajuda inestimável das auxiliares do PSF (agentes comunitárias), que iam de casa em casa (barraco em barraco), verificando as condições de saúde/moradia da população. Lembrando que essas inesquecíveis agentes de saúde foram as primeiras, junto com algumas lideranças da comunidade, que vieram para a clínica de grupo.

Logo a interseção positiva foi firmando a parceria de trabalho e os atendimentos se qualificavam, multiplicavam... Começamos com um pequeno grupo de agentes e mães e, logo depois, cerca de 1 mês, já tínhamos dezenas de partilhantes divididas em três grupos, mais atendimentos individuais, não parava de chegar gente... precisávamos de um lugar maior pra atender todo mundo. Uma moradora que tinha uma casa na entrada da Vila ofereceu sua garagem para os atendimentos individuais, ou seja, num dia tínhamos os grupos e no outro as clínicas individuais.

Nessa época também aprendi algo mais sobre a comunicação na Vila, ou seja, logo no início da subida (sim, tinha uns 100 mts de ladeira forte), uns meninos ficavam brincando e, enquanto brincavam, tinham aquele equipamento para falar (não lembro o nome) e falavam para alguém lá em cima: “o Doutor tá subindo, tá tudo beleza”.

Um desses dias, com a interseção fortalecida pelos atendimentos das mães e tias desses guris, um deles, quando eu ia subindo me olhou e disse: “tá de tv, tá de tv...” não entendi e perguntei o que era ? Ele traduziu apontando os meus óculos (quadrados no rosto), aí conseguimos rir junto, uma festa!

Algumas pessoas de lá, tinham um jeito próprio de fazer justiça. Exemplo: Num dia um ex-morador da Vila, assassino, estrupador, com um enorme currículo de maldades e crimes, foi solto pela justiça. Voltou à comunidade, foi ao bolicho ‘cantar de galo’ como diziam (significa contar vantagens, debochar, desmerecer o pessoal da comunidade...), no dia seguinte seu corpo amanheceu estendido num beco da Vila.   

Nessa época também aprendi como é possível uma mãe, com 05 filhos, fazer seu dinheiro (salário mínimo, hoje em torno de R$ 800,00) render até o final do mês e conseguir alimentar toda a turminha, vesti-los, mandar pra escola... Pensava que essas mulheres deveriam ser ministras/secretárias da economia, fantásticas!!

São muitas as histórias dessa gente incrível da Vila Alto Erechim! Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, apenas fazer uma breve introdução, rememorando os dias de muito trabalho, desafios, alegrias com a comunidade.

Começamos os atendimentos na creche, depois fomos para o postinho (era inho mesmo), quando entrava um profissional (Enfermeira) o outro (Filósofo Clínico), tinha de sair e vice-versa. Depois veio a garagem da moradora vizinha a Vila, houve ainda um período em que atendi numa escola estadual da zona (ficava na parte de baixo da Vila), muito depois veio a casa (atual) através da prefeitura, com um aparato maior e melhor para atender as pessoas.  

Essas atividades não tiveram apoio de qualquer natureza das autoridades municipais, estaduais, federais. Tratava-se de uma atividade clandestina bem sucedida. Teve como ponto de partida uma amizade e se desdobrou com a confiança e apoio fundamental da comunidade.

Lembro das lições de Michel Foucault na “Microfísica do poder”, onde ensina sobre as estruturas que se desenvolvem à margem da estrutura principal, possuindo força, objetividade, iniciativa, eficácia que, muitas vezes, o poder público não tem. Trata-se de procedimentos singularizados às necessidades de cada comunidade, envolvendo as pessoas diretamente atingidas pelas dificuldades da vida.

A comunidade da Vila Alto Erechim tinha seus próprios rituais de vivência e convivência, resistência às dificuldades impostas pela pobreza, abandono institucional, descaso da maioria das pessoas do asfalto. Uma estranha fé na vida, no amor, esperança animavam os dias e noites daquelas pessoas incríveis com as quais tive o privilégio de conviver.

(...)

Um abraço,

HS