domingo, 19 de fevereiro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Uma das atividades mais incríveis, fascinantes da Filosofia Clínica são os atendimentos na rua, nos cafés, jardins, beira da praia.... nas cidades por onde passamos compartilhando a beleza do novo paradigma, hoje fortalecido pelas percepções e acréscimos (indispensáveis) das novas conquistas das práticas em hospitais psiquiátricos, clínicas, escolas...

Ainda nos idos dos anos 90, em Porto Alegre, com algumas pessoas, foi possível experienciar essa forma de atendimento singular. Não era raro sair do consultório na Lucas de Oliveira e caminhar com os partilhantes até a praça da Encol (naquela época ainda sem tantas árvores e público como hoje), lá era possível qualificar a interseção, ter o ambiente (categoria lugar) como aliado, trabalhar sensações, deslocamentos, tradução, intencionalidades...

Recordo de uma partilhante que gostava de tomar sol e apreciar a rota dos aviões que passavam por ali. A partir disso ela recordava os bons momentos vividos, trazia de volta um sorriso que havia esquecido. Imaginava (vivenciando) que esse tempo poderia voltar (busca). Outra menina (09 anos) que tinha problemas na escola (assunto imediato) e batia nos meninos, desrespeitava a professora, não realizava trabalhos em grupo, faltava pouco para ser expulsa. Depois de uma breve caminhada, sentávamos num banco da praça e víamos os carros passando. Estabelecemos que os que vinham da esquerda eram meus e os que vinham da direita era dela...

Imediatamente ela topou ‘a brincadeira’, oportunidade para se trabalhar reciprocidade, a partilha, convívio, o início da saída do casulo (existencial) em que se metera, pela separação dos pais, o afastamento dos amigos, colegas, a mudança brusca para a capital gaúcha (assunto último).

Ocorre que mesmo nesse espaço de construção compartilhada (ainda tímida) a menina esboçava certa dificuldade em abrir mão de emprestar alguns carros, quando não passava nada do meu lado. Eu pedia uns carrinhos emprestados e ela negava. Algum tempo depois, com a interseção fortalecida, inclusive com as visitas e conversações com as pessoas na escola (professora, diretora...), aos poucos (em tempo próprio), ela foi emprestando mais e mais carros, quando não passava nada do meu lado da rua.

Depois eu também tive oportunidade de emprestar carros para ela, um tempo mais e avançamos no exercício, ou seja, eu dava alguns carros para ela e, ela já conseguia dar outros pra mim, não mais emprestava apenas.

Atender nos espaços públicos pode ser uma vivência incrível, dependendo da interseção e das estruturas de pensamento envolvidas no processo. Imprescindível os exames categoriais preliminares (fundamento), ao menos uma estrutura de pensamento informal e um domínio dos procedimentos clínicos que a pessoa consiga acessar, compreenda, identifique, interaja num espaço próprio de conforto, aprendizado...  

Em Belo Horizonte (anos 90) atendia em praças, shopping, na residência de alguns partilhantes. Isso continuou em Divinópolis/MG, depois em Uberlândia, além disso, também caminhávamos pelas ruas, sentávamos nalgum café. Em São João del Rei, onde morei por algum tempo, atendia nas casas de algumas pessoas, não era raro a clínica terminar com um café recém passado, o pão de queijo que você só encontra em Minas Gerais, preparado carinhosamente pela vó ou mãe que aguardava o término da ‘prosa com o doutor’ para dar aquela esticadinha com pitadas de amor, carinho, e mais conversações informais para a clínica da partilhante. Era comum o final da clínica ser delimitado pelo cheirinho do café recém passado que vinha da cozinha das casas. Também atendia num café, no centro da cidade, que possuía um mezanino (quase sempre vazio), onde alternava clínicas com os partilhantes da linda cidade histórica.

Atender em meio aos prédios históricos de São João del Rei, por exemplo, é uma experiência fantástica, você tem a sensação de uma volta no tempo. É possível que muitas pessoas que residam nesses lugares, não tenham mais a percepção, o alcance da beleza das ruas, dos prédios históricos, as estórias contadas pelos mais velhos, as comidinhas, bebidinhas de boteco, o festival gastronômico, a mostra de cinema de Tiradentes.... nesses lugares também havia clínica.

Os atendimentos nos pátios da UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei), antes das aulas eram dos mais interessantes, mesclando o final de tarde com as estruturas do barroco, as imagens, cores, sabores.... o café recém passado da cantina um pouco antes da aula da Filosofia Clínica.

Nos intervalos das aulas também tinha atendimento, uma clínica informal, em meio ao pão de queijo, torrada, café... Uma alegria e um privilégio conhecer uma das mais acolhedoras e lindas regiões desse país, celeiro de talentos, genialidades, competências, singularidades.  

Em Juiz de Fora isso se aperfeiçoou, atendia também em praças, cafés, caminhando pelas ruas... nos espaços internos do hospital psiquiátrico também se atendia, na Casa de Saúde Esperança, ainda participávamos do baile semanal promovido pela instituição, coisa de louco!

A abordagem da Filosofia Clínica permite essa espécie de atendimentos, em que pese a maioria dos profissionais recuar diante dessa possibilidade, talvez por medo, preconceito, insegurança... Muitas vezes pode se ficar inseguro, quanto a viabilidade dessa forma de terapia, nesses casos, o mais indicado é um atendimento mais conservador (no consultório, por exemplo).

Em Florianópolis as clínicas aconteciam na beira da praia, com algumas pessoas, também nas escolas onde trabalhávamos as aulas, nas casas dos partilhantes, no consultório... Alguns partilhantes vinham a Porto Alegre, para prosseguir os atendimentos.

No Rio de Janeiro na beira da praia, no consultório, no boteco tomando um suco, na casa das pessoas, no hospital, nos cafés (o Cafeína em Copacabana e Ipanema eram os preferidos), restaurantes (como o Barril 1.800 que ficava no Arpoador), eram alguns espaços de terapia na capital carioca.

Em Copacabana na rua Miguel Lemos, era possível caminhar com alguns partilhantes na beira da praia, pois o consultório ficava duas quadras do mar. Naquela época se descia na última parada do metrô (Cantagalo se bem me lembro..) e caminhava mais duas ou três quadras até a clínica.

Depois, com a mudança para a Faculdade Hélio Alonso (Rua da Matriz) em Botafogo, descobrimos outros endereços para atendimentos da Filosofia Clínica. Também na Gamboa, no centro histórico no Amarelinho, na confeitaria Colombo... Esse trabalho acontece como professor e filósofo clínico no Rio de Janeiro desde 1999. Comecei com uma única aluna (Ruth), depois foram chegando outras pessoas (dezenas) inesquecíveis, talentosas, sensíveis, vocacionadas ao ser filósofo clínico.

Em Niterói, do outro lado da baía (poça d’água como chama os nativos!) trabalhava na beira da praia, de onde se avistava o aeroporto Santos Dumont. Era possível testemunhar as chegadas e partidas dos voos, ficava imaginando as alegrias, tristezas, novidades, desencontros, reencontros...

Em Icaraí, onde também morei por algum tempo, gostava de transitar pelas praças (Campo de São Bento, por exemplo) calçadas e atender as pessoas caminhando. Lembro da alegria de ver na banca o exemplar da publicação da revista ‘Filosofia e Vida’, onde trazia artigos inéditos de alguns Filósofos Clínicos (isso deve ter sido por volta de 2005/2006...). Também atendia no botequim Informal nessa época, no MAC (Museu de Arte Contemporânea), lembro dos cafés filosóficos no Centro Cultural Pascoal Carlos Magno em Icaraí e seu inesquecível diretor e artista plástico talentosíssimo: Luiz Carlos Carvalho, dentre outros lugares.

Depois foram outros endereços existenciais, como a Porto Alegre de hoje, o Mercado Público, cafés... lugares, outras pessoas, singularidades, novas e velhas interseções, outro dia vou tentar lembrar das passagens pelo nordeste, pela Bahia, Ceará, Piauí... sempre com aulas, atendimentos, conferências... Depois o centro-oeste pela UNB e Universidade Católica em Brasília, a inesquecível Goiânia, Anápolis... A linda e sofisticada capital paulista, podemos falar noutro momento, uma época em que morei em São Paulo, fazendo uma ponte aérea com o Rio de Janeiro, idas e vindas, muito trabalho, aprendizagens...

(...)

Um abraço,
HS