sábado, 25 de fevereiro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Um dos elementos essenciais ao trabalho do Filósofo Clínico é identificar as origens, o alcance, significado, contexto do discurso Partilhante. Acessar a fonte de onde se origina sua trama narrativa, o sentido singular que atribui às suas palavras, como se relaciona com o mundo subjetivo, o mundo objetivo. Consigo mesmo e com os outros, num processo de idas e vindas na reciprocidade e retorno à inversão.  

Estudar Schopenhauer e Wittgenstein pode ser um bom começo, logo após a parte teórica da Filosofia Clínica, por exemplo, já que os estudos que a graduação tradicional em Filosofia oferece, despreza solenemente esses pensadores, e, quando os destaca, passa bem longe de uma leitura clínica (até porque os professores não estão preparados para uma realidade Filosófico Clínica, preparam professores e pesquisadores), preferem destacar a atividade reflexiva, analítica, um filosofar como prática subjetiva, conceitual, um caminho, dentre outros que se abrem!

Com Schopenhauer pode-se aprender, antes de mais nada, que o mundo é uma representação subjetiva. Uma construção que possui sua historicidade na caminhada existencial de cada um. Em seu texto: “O mundo como vontade e representação” aponta caminhos para se aprender sobre a realidade que cada pessoa vai elaborando ao longo da vida, como se estrutura seu olhar, o que consegue ver, o que não consegue, que sensações experiencia, quais despreza, como e o que escuta, como convive e com quem...

Nesse sentido, é possível visualizar que o discurso de cada pessoa é assim para ela e, quase nunca, pode ser considerada um preceito universal. Fora de seu contexto singular, do lugar de onde provêm as manifestações de sua expressividade (falada, escrita, musicada, desenhada...) pouco resta à atividade clínica. Noutras palavras, existe um chão constitutivo de onde a pessoa se diz existencialmente. Para dizer o que diz, enxergar o que enxerga, descrever o que vê, até a maneira pela qual efetua suas escolhas (se é que são escolhas...!?).

Uma leitura desse porte, da obra de Schopenhauer, sob muitos aspectos, tira a roupa do rei. Talvez essa seja uma das causas de não se ensinar o brilhante pensador como uma possibilidade acadêmica... Exemplo: os textos e filmes selecionados pelo professor podem dizer mais do professor que do autor ou obra estudados. 

A capacidade de reconhecer que o mundo é uma representação singular, pode se tornar mais fácil a compreensão o outro como outro e não como uma extensão/continuidade do meu mundo. Uma das tarefas essenciais ao fazer clínico do Filósofo é diferenciar, sem discriminar, a pessoa diante de si, em seu discurso existencial único. Uma atividade que reivindica treino, aptidão, vocação e tantas outras características tão distantes, muitas vezes, da realidade à qual estamos acostumados, na vida acadêmica (onde todos querem defender seu território, como se fosse único!), profissional, familiar...

Desmerecendo um olhar compreensivo, por onde seja possível acolher o discurso diferente como uma via de aprendizado, como se fora uma nova língua (que na realidade é!), oportunidade de saber mais, ampliar os rumos, as possibilidades existenciais de quem acolhe o discurso recém chegando, ainda quando isso tudo possa soar como ameaça, insegurança. Uma perplexidade acolhedora, diante do novo, também é Filosofia.

Em Wittgenstein, dentre outros aspectos, se aprende sobre os jogos de linguagem (como cada pessoa utiliza as palavras). Qual o sentido próprio dos termos agendados no intelecto. E, quando o Filósofo Clínico entra em contato com essas outras realidades discursivas, cabe a si (como papel existencial cuidador), aprender do que se trata, qual o uso e o direcionamento dessas construções expressivas.

Para se acessar as tramas discursivas da singularidade é preciso ter método. Aqui não se deve simplesmente realizar uma hermenêutica interpretativa, a partir de um suposto saber poder estruturado na experiência de outros atendimentos, ou na busca por universalizar procedimentos (o que deu certo para uma pessoa não vai, necessariamente funcionar com outra!). Aqui se trata de uma abordagem com base na singularidade.

Wittgenstein ensina, dentre muitas outras coisas, que o sentido e direcionamento das palavras usadas para construir um discurso, pronunciamento, tem a ver com a realidade da pessoa, como foi se estruturando ao longo da vida até os dias de hoje, o que não significa que não possa mudar (viés autogênico). Quando essas mudanças acontecem, não é raro também mudar as palavras e os termos agendados para manifestar essa nova realidade, suas interseções, desdobramentos.

Assim as palavras da historicidade, já alcançam ao Filósofo Clínico uma matéria-prima essencial ao seu trabalho, tanto no que se refere aos tópicos da estrutura de pensamento como os procedimentos clínicos (submodos) que vão aparecendo no discurso da pessoa. Esse material deverá ser utilizado de acordo com o planejamento clínico dos atendimentos, especificados nas circunstâncias de cada sujeito e seus direcionamentos compartilhados em clínica.

(...)

Um abraço,

*HS