segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Pouco se diz sobre os eventos que culminaram com a aceitação de colegas não filósofos nos cursos de Formação em Filosofia Clínica. Esses eventos tiveram voz e vez no início dos anos 2000 em Porto Alegre. Naquela época chamava a atenção um aspecto singular em algumas pessoas (de outras áreas) que assistiam os eventos da Filosofia Clínica. Expressavam um talento, uma vocação singular ao ser Filósofo Clínico, o qual raramente podia ser encontrado nos graduados em Filosofia.

Nessa época passei uma semana trabalhando na Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus/BA. Lá tive como companheiros de jornada pessoas de outras áreas que não a Filosofia, até tinha alguns Filósofos (que incomodavam bastante com sua insegurança com a nova abordagem!), buscavam saber todos os mil pecados da fundamentação teórica, justificativas normativas, amparo legal, bla, bla, bla. Uma chatice!

Por outro lado, quem salvou a semana foram as pessoas da história, letras, engenharia, medicina, psicólogos.... que traziam questões interessantes, do ponto de vista do esclarecimento sobre o novo método cuidador. Partilhavam depoimentos, vivências clínicas, existenciais com um viés diferenciado.

Quando voltei à Porto Alegre, numa das reuniões de Direção do Instituto Packter, lembro de ter reivindicado essa questão, junto aos colegas Filósofos Clínicos (todos Filósofos com carteirinha do MEC!), como um aprendizado que tive na semana de estudos na Bahia. O quanto existiam habilidades singulares que a graduação em Filosofia, por si só, não dava aos futuros candidatos ao ser terapeuta.

É claro que o caráter conservador (no pior sentido da expressão!) e papista da maioria derrotou a proposta (naquele momento)! Algum tempo depois foi aceita, quando alguns dos que recusaram já tinham seguido outros caminhos, pois buscavam a cátedra acadêmica, casar, ter filhos..., muitas vezes incompatíveis com o ser Filósofo Clínico.

A partir desse momento, uns dois ou três anos após a reunião inicial, a rejeição do acesso foi rejeitada! Iniciaram as novas turmas com a participação de pessoas com um talento especial. Um desses exemplos foi um aluno da área técnica (Engenharia) Bruno Packter, em Florianópolis. Profissional já consolidado como engenheiro, Bruno concluiu a parte teórica matriculado na graduação em Filosofia. Percorreu todos os caminhos e requisitos da formação em Filosofia Clínica, com uma aptidão singular.

Qualificou seu processo existencial autogênico com um talento raramente encontrado nos egressos da graduação em Filosofia (mais voltados para o trato teórico). Se sabe que a prioridade das escolas filosóficas ancoradas na academia tem como virtude o debate acadêmico, por excelência, além da formação de professores, pesquisa. Algo que costuma encantar muito os mais jovens, neófitos da retórica filosófica (o infindável debate conceitual), bem assim outros tantos que encontram no refúgio acadêmico um norte para suas vidas (muitas vezes desmerecendo suas habilidades pessoais).

Nesse sentido, a chegada dos novos colegas foi muito bem vinda! Qualificou a Filosofia Clínica, emancipou o novo paradigma, realizando na prática o diálogo interdisciplinar tão aclamado (teoricamente) em congressos, seminários.

Hoje se sabe que não basta a graduação em Filosofia para ser Filósofo Clínico. É preciso mais, inclua-se, como pré-requisito: aulas teóricas (vivências clínicas), leituras, uma competente terapia pessoal, supervisão, seminários, congressos, colóquios... A caminhada costuma durar em torno de 5/6 anos, desde as palavras iniciais e prossegue...

Nesse momento temos cerca de 15.000 Filósofos Clínicos no país, profissionais formados e em formação, num crescente número de centros de formação (cada um com sua especialidade), numero que não para de crescer, possivelmente pela interseção de pessoas especiais com a natureza da mensagem da Filosofia Clínica.

(...)

Um abraço,

HS