sábado, 4 de fevereiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*

                          
Estava pensando sobre a importância, o significado das construções compartilhadas em Filosofia Clínica. Ora, se tivesse de eleger um dos três ou quatro aspectos mais importantes de nosso trabalho, possivelmente a aptidão de realizar construções compartilhadas estaria entre os mais votados.

Quando se pensa em construção compartilhada, pode surgir na mente das pessoas acostumadas com essas vivências, as vezes em que estiveram compartilhando uma pipoca, balinhas no cinema, logo depois do filme, falando sobre a obra na companhia de um bom café, saboreando uma comidinha bem gostosa com um grupo de amigos e amigas, um por do sol, uma caminhada sem pressa... Nesses casos, pode ser um pouco mais fácil entender o conceito tão caro à nossa prática clínica, denominada: construção compartilhada.

Antes de entrar no tema propriamente dito, precisamos estabelecer uma base de apoio, sustentação e preliminares para ser possível qualificar algo assim. Para que uma construção compartilhada (de qualidade) aconteça, são necessários alguns pré-requisitos: interseção positiva (predominantemente), exames categoriais bem apontados, a semiose, o alcance da estrutura de pensamento do Filósofo na relação com a estrutura de pensamento do Partilhante, as linguagens utilizadas por ocasião dos relatos da historicidade, a matéria-prima que possa servir como fonte de inspiração aos procedimentos clínicos, a dialética do ir e vir da inversão para recíproca e vice-versa...

Descobrir como a pessoa efetiva sua comunicação, como se relaciona, suas preferências existenciais, pode ser um bom início para adentrar no imenso território da subjetividade sob os cuidados do Filósofo Clínico.

A categoria tempo também contribui para acostumar a pessoa ao lugar da clínica, à pessoa do seu Terapeuta, às suas próprias circunstâncias em clínica, as variações do tom da sua voz, o olhar, a escuta clínica, o contexto (lugar) que envolve a situação onde se exercitam existencialmente as possibilidades do Partilhante em seus instantes de reinvenção, desconstrução, reconstrução...

Sim, no primeiro encontro já costuma acontecer construções compartilhadas, talvez não com a qualidade que se busca com os dados mais aprofundados da pessoa e o desenvolvimento da sua terapia, mas o acolhimento inicial, a escuta, a partilha, o desabafo e tudo o mais que for acontecendo, já constituem um espaço de partilha no lado a lado da interseção.

Existem pessoas que possuem enorme dificuldade de efetuar construção compartilhada com alguém pelo dado presencial (olho no olho). Assim, podem se utilizar de instrumentos como o mundo virtual (internet), telefone, cartas (alguém ainda escreve cartas ?), fotografias...

No entanto, nesses casos, se perde muito conteúdo, como: as feições, caretas e demais dados da semiose, por exemplo. Não confio em clínica virtual, aula virtual, relacionamentos virtuais... a história tem mostrado, ao menos até agora, que minhas suspeitas se fortalecem com os relatos majoritários de quem tentou (de verdade!) esses artifícios de uma clínica à distância, namoro à distância, por exemplo.

Quando alguns alunos chegam com essa dificuldade, de realizar reciproca de inversão (ir ao mundo do outro), muitas vezes, fica difícil, inclusive passar os conteúdos básicos da Filosofia Clínica. Um dos seus pressupostos é o talento, a sensibilidade de se colocar no lugar do outro, ainda que em perspectiva, aprendendo, também, a regressar ao seu eixo existencial (com a matéria-prima dos encontros).

É claro que se pode exercitar essa capacidade, desenvolver certas habilidades. No entanto, penso naquelas pessoas que trazem consigo essa aptidão como um ingrediente a mais, um componente de sua singularidade, o que torna mais acolhedor os estudos, o processo (integral) da formação em clínica, incluindo as aulas teóricas, a terapia pessoal, supervisão, os primeiros anos de atendimentos..  

Existem inúmeras possibilidades de se realizar reciprocidade: com o mundo do outro, consigo mesmo na clínica pessoal. Ainda com seu meio, a cidade, o bairro, a vizinhança, as pessoas na rua... No entanto é na terapia que essa virtude mostra a que veio, ou seja, na percepção (clínica) investigativa do Filósofo com a pessoa diante de si em seu processo existencial. Estudar e aprender com o outro, colocar-se (em perspectiva) no lugar do Partilhante, inclusive realizando reduções fenomenológicas (suspensão provisória dos juízos) de qualidade, e retornar ao seu eixo próprio, fortalecendo o papel existencial cuidador, constitui-se num fundamento importante ao trabalho clínico.

Um ponto de partida da Filosofia Clínica é exatamente a aptidão aprendiz do Filósofo, pois, como não trabalha com tipologias, verdades a priori, está sempre recomeçando, em um método que possui forma sem conteúdo, o qual se constitui com a presença de cada pessoa (singularidade). Nesse sentido, a abordagem da Filosofia Clínica possui um forte componente antropológico, tendo o Filósofo como um explorador numa exploração compartilhada, num primeiro momento.

Assim, realizar construções compartilhadas pode mostrar muito da qualidade da terapia, no sentido de que pode ter um alcance significativo na malha intelectiva do Partilhante, através das palavras, silêncios, atitudes, gestos, elaborações compartilhadas e tudo mais... Além de fortalecer a pessoa em seus deslocamentos, ensaios e demais atividades como escutar o som da própria voz em seu discurso diante do espelho...

Penso ser a construção compartilhada uma estética singular, que pode ser aprendida, exercitada, divulgada, no entanto, ao Filósofo Clínico, que efetivamente vai atuar em consultório ou nos demais espaços onde for necessário, terá de ser um mestre nessa arte, levando-a as últimas consequências, se for preciso, em busca de algum bem estar subjetivo, alguma conformação tópica eficaz, abrindo horizontes ou adaptando a pessoa onde se encontre, desde que viva bem em suas possibilidades, limites territoriais, existenciais.

Um abraço e gratidão pela companhia!

Continua (...)

HS