domingo, 12 de fevereiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*


Outro dia pensava sobre a natureza, o alcance, o significado das mensagens que passamos ás pessoas com as quais convivemos. Especificamente no curso de Filosofia Clínica, onde se tem alunos com formação teórica e prática singulares, de procedências tão diferenciadas, crenças, costumes, valores, as vezes até contraditórios.  

Nos primeiros anos da Filosofia Clínica, alguns colegas, talvez na ansiedade de compartilhar a beleza da mensagem do novo método, divulgavam na (internet), dentre outros meios de comunicação, os conceitos mais caros da nossa abordagem.

Um dia, uma pessoa na cidade de Novo Hamburgo no RS, ‘abriu um consultório de Filosofia Clínica’. Mediante denúncia ao conselho de ética (na época) de alunos da mesma região, lá se foram alguns integrantes do conselho, em busca de esclarecimentos. Ora, o que aconteceu é que um professor de Filosofia, acessou na internet, 2 ou 3 cadernos iniciais da Formação (naquela época o Instituto Packter tinha essa prática) e se intitulou Filósofo Clínico, abrindo um espaço de atendimentos, com plaquinha na porta e tudo...

O conselho resolveu com tranquilidade o equívoco, orientando o professor sobre a natureza dos cadernos, os rituais da Formação, inclusive colocando à sua disposição a matrícula para que seguisse os estudos com a única instituição existente na época (Instituto Packter).

Lembrei esse evento para destacar o quanto uma mensagem, dependendo das circunstancias das pessoas envolvidas, o momento existencial, o significado, a singularidade, seu padrão autogênico, a semiose... pode chegar de maneira equívoca ao outro lado da interseção. Não só como distorção, mas até ser ilegível na modalidade presencial (imagina o virtual!).

Esses eventos (equivocidades) acontecem com maior frequência do que se gostaria. A maioria dos alunos busca conhecer um novo modelo de abordagem clínica, mas, também, muita gente procura terapia (informal), conhecer novas pessoas, fazer uma pós-graduação (status do curso) e mil outros motivos. São raros àqueles que se dedicam com a intensidade que um curso dessa natureza reivindica.

Muitos alunos trazem à Formação em Filosofia Clínica, alguns vícios da escola tradicional (ensino fundamental, médio, faculdade), como: faltar às aulas, não entregar trabalhos, não efetuar as leituras e releituras indicadas, distorcer o conteúdo programático de acordo com seus interesses (muitas vezes pontos cegos), fugir da terapia pessoal, boicotar a supervisão (não entregando as transcrições, por exemplo...), dentre outros.

Parece caber ao professor formador, uma tarefa multifacetada, ou seja: ensinar, aprender, passar e repassar conteúdos, qualificar as práticas na sala de aula, verificar sobre as leituras das obras indicadas, dos cadernos didáticos, cuidar da clínica informal do grupo (que acontece naturalmente), esclarecer dúvidas, propor exercícios e cuidar de sua execução com qualidade...

Cabe ao Filósofo Clínico que se propõe á formação, desdobrar-se num misto de educador, terapeuta, além de suas outras atividades. No entanto é sobre a mensagem que se passa em sala de aula e demais espaços de estudo (como seminários e grupos de estudo..) que me ocupo hoje, ou seja, o desafio de se estabelecer um ponto de interseção por onde os conteúdos da formação possam encontrar respaldo no entendimento e na compreensão do aluno e demais colegas.

Pode ser uma questão relacionada ao padrão autogênico. O momento de cada um, seu lugar existencial, a linguagem necessária para estabelecer uma via de acesso confiável e segura ao recebimento e troca das mensagens, o conteúdos dos estudos.

De qualquer forma, ser um formador em Filosofia Clínica é bem mais que passar matéria e cobrar alguma espécie de prova (que se sabe não prova!). É melhorar interseções, aprofundar relacionamentos, aperfeiçoar o método de trabalho (formação continuada), buscar novas leituras, qualificar releituras. Nesse sentido, possuir uma estrutura de pensamento aprendiz pode ajudar no que se refere aos atendimentos (com essa abordagem que se renova a cada clínica) como nos papéis existenciais: aluno, professor, amigo, colega...

Não vamos falar hoje, do fato de que, se você ficar afastado dos estudos, das práticas da Filosofia Clínica e retornar (isso pode levar alguns anos..), vai encontrar muita novidade, mudanças... terá de atualizar sua estrutura de pensamento, afiná-la com a estrutura de pensamento que desconhece. Isso é tema para um próximo encontro!

(...)

Um abraço,

HS