segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*


Saber diferenciar assunto imediato e assunto último é um aspecto fundamental em Filosofia Clínica. Até porque esse fenômeno se apresenta na primeira sessão, percorrendo a terapia até o limite (final de sua clínica) que o Partilhante estabelece ao seu processo existencial acompanhado.

Muita gente boa confunde esses dois momentos da atividade clínica. Talvez pela intensidade dos primeiros encontros, a ebulição, o transbordamento em esteticidade bruta, do sofrimento mais atual chegando ao consultório do Filósofo. No início desse novo método, se tinha como verdade apenas 20 minutos (aproximadamente) para esgotar o assunto imediato.

Aqui se evidencia outra diferenciação no que se refere aos primeiros tempos (primeiro Packter), devido aos ensinamentos de consultório, ou seja, o assunto imediato possui características que podem ser essenciais à continuidade e qualidade dos atendimentos. Exemplo 1: a pessoa pode necessitar de 2 ou 3 sessões (até mais..) para esgotar os conteúdos imediatos; exemplo 2: já nessa etapa inicial, é possível ao Filósofo, montar uma estrutura de pensamento provisória (com grande risco), a qual vai reivindicar uma grande capacidade plástica do terapeuta, já que essa estrutura inicial costuma modificar-se com a continuidade das sessões; exemplo 3: mesmo quando a pessoa se torna repetitiva, ainda costuma, em meio aos relatos, acrescentar mais dados à sua fala inicial; exemplo 4: O Partilhante necessita de um tempo subjetivo para se acostumar com o lugar de sua clínica, a pessoa do Filósofo Clínico; exemplo 5: o sujeito reivindica um tempo próprio para se acostumar com o dia, a hora, o som da sua voz na clínica; etc.etc, etc...

Assim, pergunta-se: como cuidar adequadamente desses primeiros conteúdos, com apenas uma sessão de aproximadamente 20 min ? Talvez em alguns casos...! (Terapia para quem não precisa de terapia ?) É preciso cuidar da construção do espaço da interseção já nessa primeira etapa do método, dentre muitos outros aspectos que são trabalhados na formação, ao longo de 5/6 anos de estudos teórico-práticos em média. Sem contar a formação continuada que se estende durante a vida do Filósofo Clínico!

Após o período inicial onde o assunto imediato contribui para a chegada da pessoa diante do Filósofo Clínico, isso pode acontecer com um tempo singular, de acordo com as necessidades de cada um. É chegado o momento de se aprender sobre o lugar existencial da pessoa, onde nasceu, como viveu até hoje, as linguagens, crenças, valores e tudo mais que for aparecendo (termo da fenomenologia, ok ?) como importante nos relatos da história de vida.

Aqui o Filósofo terapeuta precisa trabalhar bem os dados que vão se oferecendo á sua escuta clínica (com agendamentos mínimos), permitindo à pessoa se colocar de acordo com seu padrão autogênico atual, em que pese seus deslocamentos intelectivos em busca da historicidade.

Naturalmente o assunto último, que é a interseção dos tópicos estruturais mais significativos, vai surgindo, se mostrando como acontece na estrutura de pensamento, indicando quais papéis cumprem no desenvolvimento existencial da pessoa Partilhante.

 Aqui outra diferenciação dos primeiros tempos, ainda com os cadernos iniciais da formação: os tópicos periféricos ou marginais também precisam ser levados em conta, pois podem significar muito no processo desconstrutivo, reconstrutivo em cada um. Como resultante de sua movimentação autogênica em clínica, ou seja, àquilo que era margem pode assumir o centro da estrutura de pensamento, provocando autogenias (modificações existenciais) significativas.

Nesse sentido é importante destacar que em alguns casos, o processo clínico é tão intenso que as modificações atingem os princípios de verdade onde a pessoa vive e convive seus dias, modificando linguagens, interesses, convívios, escolhas... inaugurando, modificando, incrementando buscas, papéis existenciais, expressividades...

Desconheço um processo mais revolucionário do que uma boa terapia!  

(...)

Um abraço,
HS