segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Breves notas (rascunhos) dos primeiros anos*


Quando se pensa ou busca trabalhar com hermenêutica podem surgir várias dúvidas sobre o tema. Talvez a mais significativa para a Filosofia Clínica seja a distinção entre uma hermenêutica interpretativa e uma hermenêutica compreensiva.

De forma resumida e introdutória, a hermenêutica interpretativa (também usada nas abordagens tradicionais em clínica) foca na busca por entender a mensagem com base no que já se sabe sobre o tema. Tem como ponto de partida um saber poder estabelecido por alguma definição bem construída, classificada, bem ajustada e fundamentada teoricamente.

Algo, muitas vezes, cristalizado, já que confere ao texto existencial (pessoa) diante de si um tipo, estilo, característica previamente acordada, antes mesmo da chegada desse fenômeno humano. Noutras palavras, um fundamento estabelecido para reconhecer no fenômeno um paciente com alguma patologia já encontrada noutros discursos semelhantes. 

A hermenêutica filosófica, ao contrário, possui como característica uma atitude compreensiva em vias de construção compartilhada. Seu ponto de partida é uma dialética do encontro, um aprendizado, um saber que tem um não saber como ponto de partida. É claro que aqui precisamos de um método para fundamentar essa abordagem, a Filosofia Clínica, por exemplo. Interseção por onde se reivindica uma humildade, cada vez mais difícil de encontrar nos dias de hoje.

Num tempo de tanta desinformação (cada vez mais tecnologia com menos comunicação), se ter uma apropriação prévia das coisas e fatos do mundo pode acenar com a ilusão de um chão com segurança, a quem tiver acostumado/aprendido com as formas pré-estabelecidas (escola, universidade, igrejas...). 

Em Filosofia Clínica, especialmente com os trabalhos posteriores aos primeiros escritos de Lúcio Packter, inúmeras contribuições tem adicionado fundamentação teórica e fundamentação prática ao novo paradigma. Como se sabe, essa nova abordagem, como obra aberta, permanece viva e sujeita às manifestações e contribuições de quem faz dessa prática uma prioridade de ser, existir, compartilhar.

É o caso, por exemplo, da importância em diferenciar a hermenêutica que nos atrai como fundamento teórico e prático, ou seja, a hermenêutica filosófica, especificamente a partir de Hans-Georg Gadamer em “Verdade e Método I”. Essa diferenciação ajuda a conhecer uma outra questão metodológica que é a abertura fundamental para se acolher o fenômeno existencial (sujeito partilhante) diante do clínico.

Ora, se você aprendeu que esse outro é um objeto de estudo, intervenções, avaliação, etc... é assim que você vai entender e agir com as coisas! As pessoas não vão surgir diante de você como sujeito ou singularidade, mas como: tipologia, doença, algo a ser medicado, contido pela farmácia da esquina.

Gadamer ensina, antes de mais nada: cautela, respeito, método para com a condição existencial alheia ao mundo como vontade e representação do Filósofo. Apresenta a hermenêutica filosófica como condição para se aproximar do fenômeno singular irrepetível diante de si. Uma atitude compreensiva é significativamente diferente de uma atitude de entendimento.

Compreender significa estar junto, ao lado, encolher distâncias, empreender com... Entender (epistemologicamente) inclui um distanciamento existencial, uma trama conceitual que se mescla com a originalidade do Partilhante, deformando sua expressividade, criando barreiras para conhecer a pessoa como ela é.   

Anteriormente tínhamos o texto de Gadamer em ‘Verdade e Método’ para fundamentar as verdades subjetivas, como se estruturam, desenvolvem, se sustentam delimitando o lugar subjetivo... No entanto, aqui estamos avançando em direção a outro aspecto da obra, ou seja, uma hermenêutica filosófica capaz de efetivar atitudes compreensivas, estar com o outro em seus desdobramentos existenciais, qualificando as vivências e convivências clínicas como instantes de desconstrução, reconstrução, a partir das construções compartilhadas.

Não tomar o seu lugar, mas estar junto, na medida em que permita o ingresso desse outro que sou eu, em seu jardim existencial e vice-versa. Aprender os horizontes existenciais, as linguagens, os limites e deslimites, as medidas de sua régua existencial, e tudo mais que for aparecendo (fenomenologicamente), já na etapa da narrativa da história de vida.   

Tenho aprendido, com as pessoas fantásticas com as quais convivo, que muito se perdia, ao tentar apreender a pessoa a partir de pressupostos previamente definidos (neuroses, psicoses..), colocando no outro aquilo que já se sabia das demais experiências clínicas, leituras, cursos, seminários...  

Em Filosofia Clínica se busca tratar, cuidar, compartilhar eventos da e na estrutura de pensamento, bem depois dos exames categoriais, usando os procedimentos clínicos (submodos) que a própria pessoa (prioritariamente) nos ensina pela via da interseção. Consertar osso quebrado, prescrever medicação alopática é ato médico! Somos Filósofos Clínicos. Nosso lugar existencial é a interseção, convivência, intervenção com os fenômenos da singularidade.

(...)

Um abraço,

HS