segunda-feira, 13 de março de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Existem indícios ou sinais para se saber quando um aluno de Filosofia Clínica não sabe o que afirma saber. Noutras palavras, quando deixa pistas sobre sua dificuldade em realizar uma reciprocidade de qualidade com as aulas, os colegas, seu professor. Conseguir entender os conteúdos (básicos) trabalhados em sala de aula, exercícios, laboratórios, supervisão.

Um dos problemas clássicos na formação clínica é a etapa da supervisão, ou seja, onde o aluno em fase adiantada dos estudos acredita que já está pronto. A supervisão, nesses casos, seria uma mera formalidade, o supervisor seria apenas alguém para referendar seus já robustos saberes. Engano! É na supervisão que costumam aparecer os problemas do que não se conseguiu aprender na teoria, nas vivências e convivências em sala de aula, vídeos, leituras, grupos de estudo...

É comum o professor formador ter sérios problemas com alguns alunos sobre essa questão, pois os pontos cegos do aprendiz costumam fundamentar seus equívocos, distorções, enganos. Como se trabalha em cima de dados objetivos (transcrições literais das clínicas), fica mais acessível ao supervisor auxiliar o colega em formação a perceber e corrigir esses problemas, contradições em relação à metodologia.

Em casos mais extremos (término da interseção), alguns buscam outros supervisores (algo que poderia ser tranquilo). No entanto, se estes forem complacentes com o aprendiz fujão, podem criar um problema ainda maior! Pois estarão legitimando pessoas despreparadas para a atividade clínica. É comum o aluno que não conseguiu assimilar os conteúdos e fez uma terapia pessoal frágil, buscar uma supervisão que legitime sua pressa em iniciar a vida de atendimentos.

Nalguns casos até, o aluno busca noutra cidade ou estado, uma cumplicidade para essa etapa da formação, para minha surpresa, em alguns casos, encontram respaldo!! Sabe-se lá porque motivo, talvez porque os centros de formação não possuem vínculos entre si e nem sempre os colegas pedem informações ao professor titular de onde o candidato partiu, ficando com uma única versão dos fatos.
Como um dos desdobramentos disso, se verificada em blogs, sites e palestras, equivocidades e distorções metodológicas, como:

a) Filosofia Clínica são as teorias filosóficas empregadas às possibilidades do ser humano. Ora, ora, ora, a existência de uma aplicação direta de alguma teoria filosófica ao ser humano, não é Filosofia Clínica! Quem buscar entender o método a partir de uma leitura direta nos clássicos vai encontrar muita coisa, menos o constructo metodológico da Filosofia Clínica. Para isso terá de frequentar aulas, seminários, realizar estágios, supervisão, qualificar leituras de Filósofos Clínicos... A Filosofia Clínica possui luz própria, não se trata de um aconselhamento filosófico, aplicação de alguma teoria ou sugestão de leitura filosófica para as pessoas.

b)   Uso do conhecimento filosófico à psicoterapia. A fonte de onde surgiu a Filosofia Clínica é a Filosofia. No entanto não confundir sua base teórica e a matéria-prima com que trabalhou o pensador da Filosofia Clínica, Lúcio Packter, com a posterior fundamentação prática e teórica, como desdobramentos dos atendimentos, algo semelhante (mas diferente) aos processos da Psicanálise. Em Filosofia Clínica não se faz ‘psicoterapia’ as questões trabalhadas são de outra natureza, os pressupostos teóricos, a compreensão de mundo e humanidade são diferentes, o ponto de partida e o ponto de chegada também são contraditórios com outras abordagens e vice-versa.

c)     Filosofia aplicada à busca de respostas para as questões existenciais. Outro engano! É possível se dizer que a Filosofia Clínica seja uma Filosofia Aplicada. No entanto, ela não busca respostas (embora possa fazer isso dentro do processo clínico, como uma etapa apenas) para as questões existenciais. Aqui pode se tratar de um aspecto do processo da terapia, uma etapa, jamais ponto de chegada, talvez ponto de partida (assunto imediato).

d)   Busca de compreensão das causas. Outra equivocidade, ou seja, compreender as causas (assunto último) e nada fazer com isso não é Filosofia Clínica. Isso outras abordagens já fazem! Nesse novo paradigma a compreensão é uma das etapas, algumas vezes é o início da clínica (assunto imediato). Após os exames iniciais e fundamentais, vem a estrutura de pensamento, depois os procedimentos clínicos que buscam qualificar o exercício existencial da pessoa em alguns casos, noutros o contrário disso...

e)      A ação em conformidade com aquilo que está registrado na malha intelectiva forma a Estrutura de Pensamento. Outro engano! A Estrutura de pensamento é onde ficam registrados os desdobramentos existenciais de cada pessoa, uma geografia subjetiva onde se tem acesso pela historicidade compartilhada (detalhadamente). As ações e interações clínicas tem a ver com os submodos (procedimentos), e possuem como fonte de matéria-prima a historicidade. Existem tantas ações quantos são os seres humanos (singularidade), assim nem sempre nossas iniciativas estão em conformidade com a Estrutura Pensamento, embora não se consiga enxergar ou acessar esse fato (enxergar, neste caso, seria apenas um momento do processo e não o todo!).

(...)

Um abraço,

HS