domingo, 19 de março de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Um dos aspectos fundamentais ao trabalho do Filósofo Clínico é detectar e interagir com os deslocamentos intelectivos de seu partilhante. Aprender pela vida da interseção clínica, a movimentação singular da atenção do outro sob seus cuidados. Seu endereço subjetivo preferido ou a forma predominante como se estrutura ao compartilhar seu teor discursivo existencial.

Para se entender o conceito básico dos deslocamentos é importante retomar a percepção de Inversão, recíproca de inversão, deslocamento curto, deslocamento longo (antes mesmo de suas derivações). Sendo o primeiro basicamente um movimento ensimesmado, onde a pessoa aprecia trazer os outros ao seu mundo existencial, em detrimento, muitas vezes, de qualquer outra forma de interação com algo fora de seu mundo ou de sua ótica própria. 

A Recíproca de inversão é um movimento que considera essencialmente o outro, seu deslocamento intelectivo e existencial, os desdobramentos fora de sua ótica subjetiva. Com ela é possível visitar os jardins alheios, acolher os discursos do Partilhante, deslocar-se prioritariamente ao mundo do outro, compreender suas múltiplas formas de expressão existencial. Uma atividade essencial ao ser Filósofo Clínico.

É mais ou menos claro que o Terapeuta precisa, antes mesmo de acolher os deslocamentos do Partilhante, conhecer suas características pessoais em relação consigo mesmo e os atendimentos que realiza, ou seja, qualificar a reciprocidade e retornar ao seu eixo do papel existencial cuidador, elaborando leituras e releituras do material clínico coletado do outro lado da interseção.

O Deslocamento curto refere-se aos objetos presentes ao dado sensorial. Aquilo que se apresenta como cor, sabor, sons, cheiros... algo que pode ser significativo quando cuidar de pessoas estruturadas (prioritariamente) no campo sensorial e, em muitos casos (sempre de acordo com a estrutura de pensamento singular), quando o Partilhante se move de um jeito problemático (para ele) em ideias complexas, desconhecendo ou enfraquecendo sua experiência sensorial no mundo objetivo.

Deslocamentos longos referem-se aos dados recuperados da memória, reconstruções, desconstruções narrativas da história de vida, lembranças, atividade imaginativa, criativa, buscas.... que não esteja objetivamente ligada ao aqui agora acontecendo. Esses deslocamentos da malha intelectiva quando estruturados no contexto da atividade clínica, podem servir para reescrever a história da pessoa, modificar dados da historicidade, eventos problemáticos, enraizamentos em aspectos prazerosos que ficaram no passado, podem ser resgatados com uma finalidade específica na terapia.

Entender esses conceitos básicos da movimentação intelectiva é essencial para que o Filósofo Clínico consiga interagir com a qualidade que o Partilhante reivindica, ou seja, de nada adianta o profissional aplicar seu saber de base livresca ou apriorística (com base numa experiência de leituras ou casos clínicos anteriores) com a pessoa, se ele não consegue acessar (intelectivamente e existencialmente) o outro sob seus cuidados. Aqui elementos como a semiose, expressividade, interseção, podem auxiliar, para chegar ao mundo como vontade e representação da pessoa em clínica.  

Noutras palavras, o método da Filosofia Clínica permite acolher e tratar o fenômeno existencial Partilhante, de acordo com o que sua singularidade reivindica, tendo como fundamento a matéria-prima colhida do outro lado da interseção. Nesse sentido se destaca uma percepção aprendiz do Filósofo, na relação com as pessoas que vai atender, cuidar, interagir, sempre de acordo com as especificidades do sujeito Partilhante e não tendo como ponto de partida as leituras do Filósofo, suas convicções, pré-juízos, vivências... isso pode valer pouco ou nada, também o contrário disso, de acordo com o que for, fenomenologicamente aparecendo nos encontros.

Existem muitas especificidades no que diz respeito aos movimentos da espacialidade clínica, uma das mais interessantes, é quando o Filósofo não consegue acessar uma pessoa essencialmente inversiva, mas descobre, através dos exames categoriais, uma pessoa ou evento em seu passado que pode auxiliar no trabalho de hoje, ou seja, o terapeuta consegue efetivar um movimento de recíproca mínima com o Partilhante inversivo e, assim, lhe conduz ao dado significativo (seja pessoa ou evento) noutra perspectiva, e lá realiza a terapia que não se consegue aqui.

Trata-se de desdobramentos subjetivos da malha intelectiva (com repercussão no mundo objetivo) onde se trabalha questões que de outra maneira jamais seriam acessadas, devido ao travamento defensivo do Partilhante, que pode se sentir ameaçado quando abordado diretamente (isso através de uma informação dirigida, intencionalidade dirigida...). Esse aspecto se refere a uma abordagem indireta, pois utiliza um procedimento para convidar o Partilhante a revisitar um evento específico que lhe causou um bem estar importante ou a recordação de uma pessoa inesquecível, elementos através do qual o Filósofo poderá qualificar sua atividade clínica.

Os estudos e pesquisas no que diz respeito a espacialidade clínica, podem ser aprofundados (teoricamente) em leituras como: Gadamer em ‘Verdade e Método’, ‘Investigações Filosóficas’ de Wittgenstein, na escola empírica inglesa: Jeorge Berkeley, John Locke, David Hume, também em Merleau-Ponty na ‘Fenomenologia da Percepção’, ‘O olho e o Espírito’..., Malinowski e seu ‘Argonautas do pacífico ocidental’, ‘O Óbvio e o obtuso’ de Roland Barthes, John Searle ‘Intencionalidade’, a ‘Redescoberta da Mente’..., ‘O ritmo da vida’ de Michel Mafessoli...

O aprofundamento e a fundamentação prática acontecem nos atendimentos clínicos, grupos de estudo, considerações, descobertas, partilhadas em seminários, congressos, colóquios de Filosofia Clínica. No entanto, é essencial a frequência continuada às aulas num centro de formação confiável, além de uma clínica pessoal, didática e supervisão de qualidade.

Um abraço,

(...)

*HS