domingo, 26 de março de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

 

Um novo paradigma surge no horizonte das possibilidades existenciais, como resultante do trabalho de uma pessoa ou grupo de pesquisa. Isso acontece, usualmente, fora do circuito de controle das especializações. Esse algo mais permite à genialidade precursora, um atrevimento de desleitura dos seus limites. Efetuando uma transgressão do que se sabia conhecido, se tinha como verdade, direciona-se ao novo, implementa suas ideias, práticas, emancipando uma parcela significativa desse imenso universo desconhecido.  

Uma boa leitura para se entender o processo de estruturação desses novos modelos de ciência, é a obra de Thomas Kuhn, intitulada: A estrutura das revoluções científicas, como introdução e sustentação ao tema.

Por outro lado, sem uma adequada compreensão e entendimento das novas expressões usadas, as quais estruturam as ideias e formalizam a linguagem desses novos pressupostos, é preciso conhecer seu sentido, significado próprio, algo trabalhado por Wittgenstein em seu texto: Investigações filosóficas. Assim, uma expressão que tenha um nome com um significado conhecido pelos princípios de verdade, pode adquirir (e adquire) um sentido próprio na nova conformação linguística onde estrutura novas ideias, conformações estruturais, existenciais, práticas e procedimentos.

Nesse sentido, em Filosofia Clínica também é assim, o novo paradigma possui nomenclatura própria, com sentido singular, em que pese algumas palavras lembrarem (equivocadamente) seu uso com um sentido único no cotidiano das pessoas, referendado pelo dicionário usual.

Um exemplo é o termo busca, facilmente confundido com um sentido único. Traduzido (pelo dicionário das unanimidades) como procura, inspeção, averiguação... No novo paradigma terapêutico significa para onde a pessoa se dirige existencialmente, não para onde a pessoa acredita, necessariamente, mas para onde se direciona efetivamente, como resultante dos desdobramentos existenciais, ainda quando sua intenção lhe leva a dizer algo diferente de suas práticas.

Outro é a expressão intencionalidade, que o dicionário usual diz: desejo, plano, ideia... Quando em Filosofia Clínica significa um filtro por onde podem transitar informações específicas, resultante de agendamentos, enraizamentos clínicos. Um canal de expressividade por onde conteúdos específicos podem se deslocar de um lugar a outro na estrutura de pensamento da pessoa ou da estrutura de pensamento de uma pessoa para outra.

Bem assim o termo paixão dominante, que significa no palavrório comum: amor, entusiasmo, arrebatamento. No modelo da clínica filosófica, significa algo que permanece como predominante na estrutura de pensamento da pessoa, algo que a acompanha no curso de um longo período de sua vida, não sendo raro acompanhar por toda a sua vida. Algo que não tem, necessariamente força, mas continuidade.

Também a palavra expressividade, segundo o dicionário: manifestação, revelação. Em Filosofia Clínica significa o quanto a pessoa mantém de si mesma na direção dos outros com os quais convive. Uma espécie de integração pessoal, por onde os tópicos conseguem um padrão autogênico de qualidade positiva.

O novo modelo possui luz própria, fundamentação teórica na filosofia, não reconhece tipologias como fundamento de suas intervenções clínicas, não interna e não medica com alopáticos. Pra começo de conversa. Existem muitos outros pressupostos que a fundamentam, trabalhados nos cursos de formação clínica.

Entender o sentido, significado, direcionamento das expressões do novo paradigma, é um fundamento para se aproximar desse construto metodológico. Como se fosse necessário ter fluência numa língua estrangeira, para transitar pelos seus meandros, esconderijos, labirintos. Falar num padrão autogênico comum, por onde as verdades da interseção clínica vão se mostrando.

Assim, a simples leitura dos cadernos pedagógicos, das obras, textos, sites, blogs, pode significar uma grande confusão ao leitor incauto, despreparado, usando óculos da leitura comum. Algo que acontece nos sistemas filosóficos, por onde já existem dicionários de alguns filósofos, além de boas traduções, para uma aproximação de qualidade com as ideias dos pensadores.

Em Filosofia Clínica se trata de uma obra por fazer, ou seja, seria preciso colher as expressões e seus sentidos no contexto do novo paradigma, distribuídos nos livros já publicados, além dos primeiros cadernos e o que mais for chegando. Ainda seria preciso agregar as novas expressões resultantes das práticas, estudos, pesquisas dos atores da teoria e da prática da Filosofia Clínica.

No horizonte da Filosofia Clínica há muito por fazer e um número escasso de profissionais com dedicação exclusiva, seja por se tratar de um novo modelo de compreensão da vida, o fenômeno humano e as intervenções, sua contradição com os atuais modelos de terapia. Ao oferecer uma medicação contida na palavra singular, seus desdobramentos, também significam sob vários aspectos, uma ameaça aos sistemas conhecidos.  

Nesse sentido a caminhada apenas se inicia e parece que ainda terá um longo caminho pela frente, de estudos, atendimentos, pesquisa, publicações. Sua maior e melhor característica ainda é a qualidade de sua mensagem! Sua manutenção é um dos pontos principais para o nascimento da Casa da Filosofia Clínica.

(...)

Um abraço,

HS