quarta-feira, 29 de março de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Se tivesse de elencar a etapa fundamental do método da Filosofia Clínica, essa seria os exames categoriais. Um momento de estudo circunstanciado, com base na fenomenologia, analítica da linguagem, a escuta do Filósofo. Acrescente-se aí uma atividade intensa de recíproca de inversão, ou seja, o aprofundamento do terapeuta na perspectiva do outro sob seus cuidados, em seu mundo como vontade e representação.

Desde a interseção inicial e o acolhimento dos assuntos imediatos, a identificação da categoria lugar e demais elementos dos primeiros instantes, já é possível visualizar o significado e o alcance dos exames categoriais, os quais consistem numa apropriação cuidadosa dos dados fornecidos pelo discurso Partilhante (os tópicos determinantes e sua autogenia, os submodos..).

Nessa caminhada, se leva em conta o que for aparecendo, as considerações contidas no que se diz, no que não se diz, os silêncios, interrupções, desconversas, faltas às sessões, busca por entendimento, compreensão de parte do Filósofo, são alguns aspectos que podem qualificar essa etapa do trabalho em Filosofia Clínica.

Como não se utiliza de tipos psicológicos ou de qualquer método conhecido (em que pese utilizar métodos de fundamentação), embora algumas vezes em momentos da terapia, possa lembrar esse ou aquele aspecto conhecido, isso pode dificultar a percepção da integridade do novo paradigma. Nesse sentido, o modelo da Filosofia Clínica encontra nos exames categoriais (categorias Aristotélico-Kantianas) um suporte teórico para acolher e interagir com a subjetividade sob seus cuidados.

Nos exames categoriais o Filósofo tem um acesso autorizado e conhece, na versão Partilhante, o seu território existencial circunstanciado. Desde os primeiros momentos de vida (que se recorda) até os dais atuais, com riqueza de detalhes, reconstruções, desconstruções, adições, subtrações, divisões... aqui prevalece a direção das narrativas em sentido próprio.  

O conceito tradicional dos exames categoriais é: etapa para localizar existencialmente a pessoa. Saber onde nasceu, como foi criada, as convivências, lugares, tempos, interseções e tudo mais que apareça pela via da interseção clínica. Aqui cabe ao Filósofo Clínico desenvolver uma escuta atenta ao discurso do outro sob seus cuidados, mas também escutar sua escuta escutando o outro. Isso tudo vigiado pela epistemologia contida no papel existencial cuidador, dentre outros aspectos.  

Com essa base se elabora um trabalho clínico de maior alcance, onde os elementos de maior intimidade são oferecidos ao Filósofo pela via discursiva, para poder transitar pela geografia interna do Partilhante, qualificar deslocamentos, entender discursos, e a natureza dos termos agendados, descrever com maior objetividade as expressões contidas na drogaria subjetiva da pessoa.

Aqui não se trata de colocar no sujeito Partilhante um olhar especialista de conteúdos ‘a priori’, mas conhecer as narrativas da história de vida, com base numa redução fenomenológica capaz de descrever o fenômeno existencial diante de si, seus desdobramentos existenciais, os padrões, dados da literalidade, evoluções e retrocessos do assunto imediato, a identificação correta do assunto último...

O método da Filosofia Clínica se desenvolve a ‘posteriori’, inicialmente se tem uma forma sem conteúdo, tendo como fundamento a especificidade de cada Partilhante. Para que isso seja possível, cabe ao Filósofo aprendiz, acolher e compreender, num  primeiro instante, as verdades subjetivas que vão surgindo, pela via da interseção e tratativas da historicidade, com um mínimo de agendamento (interrupções) de parte do Filósofo.

 Não é raro o Filósofo Clínico, na fase de sua supervisão, querer apressar essa etapa, no afã de montar a estrutura de pensamento e aplicar os procedimentos clínicos. Faz parte da caminhada de estudos, essa parte prática, onde se aprende, também, sobre a existência de um tempo subjetivo que precisa ser respeitado, um dos ingredientes dessa etapa inicial junto com a evolução do assunto imediato, circunstância (historicidade), lugar, tempo e relação (interseção com coisas, lugares, consigo mesma..).

Além desse movimento de alma do terapeuta, também é importante que vigie sua própria estrutura quando em relação com a estrutura Partilhante. Reconheça fragilidades, fortalezas, perda de foco, ameaças ao trabalho do lado a lado da interseção. Aqui a atividade clínica do Filósofo lembra um maestro em sua regência dos tópicos da estrutura de pensamento.  

Nesse momento da terapia cabe ao Filósofo estudar, aprender os movimentos que a estrutura de pensamento realiza, suas origens, evoluções, involuções, desaparecimentos, ressurgimentos, os desdobramentos em virtude dos processos existenciais que lhe acontecem até o momento de sua partilha na forma de um relato verbal, escrito, desenhado, representado...

Desse lugar único (singularidade) sai a matéria-prima com a qual o Filósofo irá trabalhar em consultório. O Partilhante, nessa abordagem clínica, é um sujeito irrepetível, não se enquadra em tipos, classificações, pois para cada pessoa existe um método terapêutico, algo cogitado pela genialidade de Jung, mas jamais pensado como a estrutura da Filosofia Clínica, em um jeito único para acolher e trabalhar com o fenômeno humano singular.

(...)

Um abraço,

HS