segunda-feira, 6 de março de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

                
Nos anos de 1996 e 1997 na cidade de São Leopoldo/RS, uma linda e acolhedora cidade integrante do Vale do Rio dos Sinos (de colonização predominante alemã), tive a oportunidade de trabalhar com um grupo de alunos e ex-alunos. Tratava-se de uma vivência inicial com terapia de grupo a partir da Filosofia Clínica.

Tínhamos, inicialmente, 04 grupos de 12 a 15 integrantes cada um. Uma faixa etária de 17/23 anos, em média. As atividades aconteciam num espaço da escola estadual Pedro Schneider, no centro da cidade. Começávamos às 13hs de sábado e seguíamos até às 19hs, numa duração aproximada de 02 horas para cada grupo.

Nessa época acreditava que os grupos poderiam ser de qualquer número e com base na afinidade que traziam da escola ou faculdade. Logo depois descobri o equívoco de se ter grupos grandes para terapia. Nessa época aprendi muito com uma interseção entre a Filosofia Clínica e os trabalhos de dois grupoterapeutas gaúchos: David Zimermann e Luiz Carlos Osório, duas feras nessa espécie de terapia, só que, no caso deles, com base na psicanálise.

Com as devidas observações críticas, reflexivas, analíticas dessas e de outras tantas leituras, tendo como fundamento a metodologia da Filosofia Clínica, comecei os trabalhos, que duraram 02 anos (nessa primeira etapa), sempre nas tardes de sábado. Depois de algum tempo, com algumas desistências e ingresso de novos participantes, os grupos se fixaram em numero de 3, com uma média de 8/10 participantes, assim foram até o final do projeto.

Um aprendizado dessa época, com base na prática com os grupos, era de que alguns participantes precisavam de uma clínica individual, o grupo não lhes fazia bem. Outra constatação era a necessidade de, apesar de sua integração preliminar na escola ou faculdade, as pessoas precisarem de outras estruturas de apoio (subjetivas) para qualificar sua clínica no processo de grupos com base na Filosofia Clínica. Nesse sentido, se desenvolveu uma abordagem preliminar com os integrantes, buscando melhorar as possibilidades de interseção no grupo.

Outro aspecto interessante e que qualificava a clínica da Filosofia Clínica em grupo era o processo de identificação do dado de semiose principal dos integrantes, a linguagem por onde o grupo se dizia, a estrutura de pensamento principal e coadjuvantes, os procedimentos determinantes e periféricos do grupo, o aproveitamento, o bem estar subjetivo...

Algumas vezes, quando acontecia alguma esteticidade bruta como: choro, xingamento, grito, desavença, entre duas ou mais pessoas, como resultante de um processo desconstrutivo mais avançado, a partir do tema abordado, minha atuação era como mediador, qualificando uma escuta compreensiva, buscando a interseção com as singularidades em processo. 

A alternância da semiose falada para a escrita e vice-versa, sessões de cinema que abordavam temas de interesse do grupo, textos, livros, musica, que falavam sua linguagem (padrão autogênico), atividades com argila, massinha de modelar, tintas e pincéis, giz de cera também eram frequentes, elementos indispensáveis para a expressividade e integração dos participantes.  

A Filosofia Clínica aplicada ao processo de grupo tem como ponto de partida e sustentação, as etapas do método: exames categoriais, estrutura de pensamento, submodos, com suas correlações, derivações, enraizamentos, divisões, atalhos... Inicialmente o Filósofo deve estruturar seu trabalho de acordo com as necessidades de cada integrante (assunto imediato), tendo como ponto de partida 2 ou 3 clínicas preliminares individuais, para depois montar o grupo, com maior chance de acerto no que se refere a qualidade da interseção. Também pode contar com um colega como co-coordenador do processo (no caso de grupos maiores).

Uma característica importante é o numero de participantes, dependendo das questões envolvidas, um grupo de 5/6 pessoas no máximo tende a ser mais favorável para o sucesso do empreendimento, permitindo uma melhor interação, escuta, reciprocidade, diálogos, trocas, traduções, roteiros... Não é raro o abandono de algum integrante depois de iniciado o processo, nesses casos se procura seguir a atividade clínica individual, caso a pessoa esteja disposta a continuar seu processo clínico.  

Esses grupos depois evoluíram para novos grupos, num outro contexto, com alunos da faculdade onde trabalhava. Nesse tempo (1999/2000), os eventos da clínica de grupo já aconteciam em Porto Alegre, na sede do Instituto Packter, também em sábados à tarde, tínhamos 02 grupos de 8/9 pessoas.

(...)

Um abraço,

HS