segunda-feira, 10 de abril de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Quando o Filósofo Clínico, após os desdobramentos do assunto imediato, inicia a etapa dos exames categoriais (localização existencial) com o Partilhante (alguém que compartilha um espaço em clínica), pode obter a historicidade detalhada (com base na fenomenologia..) através das narrativas deste. Um dos aspectos que podem ser determinantes é a categoria lugar, onde acontecem os eventos subjetivos mais significativos. 

Assim a pessoa pode lembrar da casa onde morou aos 5/6 anos de idade, a primeira mudança aos 12 anos, depois a segunda aos 16 anos, o significado que esses eventos tiveram em sua vida, as interseções que acompanharam e as que foram desconstruídas pelo caminho.  

Na primeira residência tinha um pátio amplo, onde podia correr, brincar, pisar a terra de pés descalços, tomar banho de chuva, comer fruta no pé... Depois a família mudou para um apartamento, num bairro diferente, sons, cheiros, vizinhança, ideias, sensações diferenciadas. A próxima mudança foi de cidade, para uma casa espaçosa, com um lindo pátio, um jardim florido, no entanto, a pessoa já não era mais a mesma, para ela isso tudo não fazia mais sentido, sentia saudades do concreto do apartamento anterior, dos amigos e vizinhos...

Esse brevíssimo esboço onde a categoria lugar é determinante, ajuda a entender como as circunstancias físicas podem influenciar o desenvolvimento da estrutura de pensamento. Acolher ou rechaçar interseções subjetivas e objetivas, descrever percepções, ajudar a compreender melhor o significado dos dados atuais (como a pessoa significa hoje) ao relembrar/vivenciando isso tudo.

O lugar interno, assim descrito, pode vincular-se ao lugar externo e vice-versa. Nem sempre em interseção positiva, podendo mesclar com interseções mistas, negativas, indeterminadas.... Aqui o Filósofo deverá ter claro o que predomina, de acordo com o discurso Partilhante nas descrições de sua história de vida.

Um exemplo disso é quando a pessoa, no dado atual de 45 anos de idade (certidão de nascimento) tem como referência de cheiro da chuva uma vivência dos seus 5/6 anos, época que residia numa casa com pátio e era muito feliz (literalidade contextualizada). Um dado sensorial que restou ancorado como verdade subjetiva e objetiva na relação da pessoa com a chuva.

Outro exemplo é quando, nos dias de hoje, aos 36 anos (certidão de nascimento), alguém se assusta com o som de uma trovoada e corre para seu quarto. Algo que acontecia (predominantemente) no período entre os 10 e 15 anos, quando a mãe assustava a filha dizendo que ‘papai do céu estava brabo’ por ela ter desobedecido seus pais.

Aqui, pelos critérios da Filosofia Clínica, não há de se entender essa vivência como algo isolado (um trauma!?), mas um conteúdo reincidente e que possui um padrão na historicidade da Partilhante, ou seja, a mãe ameaçava a filha durante vários anos. Inclusive ainda hoje faz isso (como brincadeirinha...!), com ela adulta, algo que vem sendo trabalho em sua terapia.

Existem casos em que a pessoa guarda na memória o aroma, som, cores, sabores, referentes a um fato ou determinada época, como: 1) O bolo que a vó fazia e deixava esfriando em cima da mesa; 2) Quando a Partilhante deu seu primeiro beijo e registrou o perfume que o rapaz usava naquela época, hoje, ao se aproximar de alguém que lhe interessa, busca nele algo semelhante; 3) Uma rua onde perdeu alguém querido, jamais conseguindo retornar ao lugar e, a partir daí significa as ruas de acordo com o que lhe acontece nelas; 4) Um acidente de carro onde a Partilhante foi a única sobrevivente e, depois disso, passou a adicionar as várias notícias onde as pessoas perdiam entes queridos, não conseguindo mais dirigir; 5) O natal com a chegada do papai noel, a distribuição dos presentes, as brincadeiras pela madrugada, numa determinada casa com a presença da família inteira, fator determinante para a continuidade da tradição nos dias de hoje.  

Um caso dos mais emblemáticos (todos os casos em clínica o são!) é quando a pessoa convive com seus dias atuais, tendo como referência a categoria lugar onde viveu entre os 15 e 20 anos de idade (certidão de nascimento). Noutras palavras, a pessoa aparenta estar aqui (fisicamente), mas está lá (intelectivamente), o que pode acarretar inúmeros dissabores, desmerecimentos ao lugar onde se encontra hoje, deixando amigos, familiares, colegas sem saber o que se passa... O contrário disso pode ser verdadeiro, noutros casos específicos, em novos contextos.

A categoria lugar, quando se destaca na estrutura de pensamento da pessoa, pode auxiliar o trabalho do Filósofo Clínico, o qual pode deslocar imagens, desconstruir interseções, reconstruir eventos, roteirizar o passado na relação com o futuro para viabiliza o presente, e muito mais... sempre de acordo com a singularidade Partilhante.

(...)

Um abraço,

HS