domingo, 16 de abril de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Um dos maiores desafios de um novo paradigma é o confronto (inevitável), com os regramentos, normas, a estrutura de poder que já existe em torno do tema que ora se vê confrontado com as novas ideias, práticas, propostas de qualificação.

No mundo da ciência esse tema é um clássico, pois trata dos enfrentamentos ideológicos entre aquilo que já existe e está consolidado como prática conhecida, aprovada, regulamentada, na relação conflituosa com a novidade que se esboça e se apresenta em contradição com o cotidiano (princípios de verdade) instituído, legalizado, estruturado no corpo, espírito, no jeito de ser das pessoas, de sua época. As quais, muitas vezes, num espírito de rebanho, buscam sustentar suas formas de acomodação existencial.

Com a Filosofia Clínica não tem sido diferente! Aliás, um dos fundamentos do novo paradigma são as reações de medo, insegurança que despertam nos meios que se sentem ameaçados com as novas ideias e práticas. Aqui me refiro especificamente ao mundo da psiquiatria, psicologia, psicanálise, que se vem confrontados com os temas, a fundamentação teórica e prática, a chegada de uma abordagem clínica como a Filosofia Clínica (que não é a única, existem outras novas abordagens chegando...)

No início as tentativas de desmerecimento do novo paradigma eram superficiais, quase cômicas, como por exemplo: isso não é possível, não possui fundamento, não estudam as psicopatologias na graduação da Filosofia, é um grupo de adolescentes que cabe numa Kombi...

Depois de algum tempo, até reconheceram que o novo modelo de compreensão e intervenção com o fenômeno humano em crise era válido, só que mudaram o discurso! Agora, nesse segundo momento, diziam que o método até poderia ser válido, só que não trazia nada de novo.

Mais adiante ainda, como a Filosofia Clínica começava a mostrar empiricamente à que veio, iniciaram (algumas pessoas específicas dentro de setores específicos) um combate mais duro, nossos primeiros professores que transitavam pelo país eram ameaçados com polícia, justiça, perseguição aos centros de formação (com ameaças veladas e outras nem tanto!), nos caluniavam nos jornais, revistas, programas de rádio e tv. Tínhamos enorme dificuldade para encontrar um local para as aulas... Depois tudo foi mudando, quando conheceram a natureza da mensagem da Filosofia Clínica, sua fundamentação teórica e prática, mas não sem antes atacar furiosamente, em alguns casos, quem buscava compartilhar cuidado e atenção á vida!

Ora, numa obra intitulada: “A estrutura das revoluções científicas” Thomas Kuhn descreve todo o processo (que pode levar muito tempo...) para apreciação, consideração, acolhimento, aprovação dos novos modelos de ciência. Nesse sentido, cabe lembrar de que não é preocupação da Filosofia Clínica ser ciência, já que atua com o fenômeno humano e com ele estrutura e desenvolve sua atividade clínica. Ciência cabe para os profissionais que consertam osso quebrado, trabalham com base na leitura e interpretação de exames de sangue, etc, etc...

Lembro de que não existem exames médicos para comprovar, por exemplo: uma ‘patologia’ intitulada esquizofrenia (termo genérico onde cabe quase todo mundo, inclusive os alienistas detratores de seus oponentes!). O que acontece, via de regra, são posições políticas e ideológicas (ver Michel Foucault na Microfísica do Poder, História da Loucura...) de parte dos psiquiatras, hospícios e indústria farmacêutica, os quais tem um interesse nada humano na proliferação dessas casas de tortura, na prescrição e venda de medicamentos que desvirtuam a condição humana, submete as pessoas em seus instantes de crise de resignificação existencial, pra começo de conversa.

Num país como o nosso, onde prolifera a pobreza (não apenas a econômica, mas a cultural, existencial..) em todos os seus aspectos, a desinformação, se estimula o medo, a insegurança. Como exemplo disso, vejam o número de farmácias e igrejas por esse enorme país!  

Ao se ter mais igrejas, farmácias e manicômios, mais desinformação, menos escolas e ensino de qualidade, se tem uma via correspondente de mais pobreza, desinformação,  miséria, manipulação, submissão, ignorância. Um território próspero para a indústria da loucura que se instalou nesse país (veja o caso de Barbacena por exemplo!). Sua instituição do ‘trem de doido’! Que partia da Bahia e vinha varrendo o país, acorrentando prostitutas, degenerados, políticos de oposição, intelectuais, pensadores... e que tinha como ponto de chegada, para quem não morria na viagem, o gigantesco sistema de hospícios da cidade mineira.

As circunstancias de hoje não mudaram muito, apenas estão mais disfarçadas, recentemente um Partilhante, no centro do país, se viu internado (hospital psiquiátrico) pelo próprio filho, o qual buscava, com auxílio de familiares, advogados e psiquiatra, desqualificar existencialmente e interditar o pai para se apossar de seus bens.  

Mesmo no meio considerado mais esclarecido, como as universidades, por exemplo, o que acontece ? Na graduação em Filosofia se ensina pensadores que não comprometam o status quo. Proliferam manuais e estudos voltados para a história da Filosofia. Não se motivam os alunos para pensar, discutir, refletir, analisar, filosofar. No primeiro movimento de criatividade, contradição, são excluídos pela ditadura das avaliações, bolsas de estudo, pelo olhar de reprovação do professor, também ele castrado em sua caminhada teórica e prática, como estudante e pesquisador, pelas regras da instituição que o mantém refém do contracheque.

Nos anos 90 e início dos anos 2000 no Brasil, alguns professores comentadores, inclusive gente que já ocupou ministérios nos governos federais e estaduais, falavam do que desconheciam. Maldiziam a Filosofia Clínica! Defendiam o sistema onde estavam inseridos e com o qual concordavam (e muitos se diziam progressistas!), pessoas consideradas acima de qualquer suspeita.

Em meio a tudo isso, a Filosofia Clínica, fundamentada numa mensagem de paz, amor e cuidado, além de mais de 2000 anos de Filosofia, a partir dos escritos e ideias de Lúcio Packter, continuava suas ações transformadoras nos centros de formação, atividades em hospitais psiquiátricos (embora não concordando com a internação involuntária, buscava-se modificar o que existia atuando de dentro pra fora) levando informações (palestras, cursos..) e atuação diferenciada, partilhando novas leituras dos livros, da vida, das práticas institucionalizadas com os colegas de outras áreas.  

Em alguns casos conseguimos algum êxito, por algum tempo. Recordo de um fato mais recente, onde, em razão do êxito dos atendimentos e trabalho da Filosofia Clínica, fomos convidados a indicar um médico psiquiatra para coordenar a parte técnica de um hospital psiquiátrico (por lei é preciso ser psiquiatra), o qual buscava humanizar suas práticas. Como nosso candidato havia passado pela parte teórica da Filosofia Clínica, se acreditava que fosse contribuir com o processo de inovação, qualificar atendimentos, desmedicalizar tratamentos, contribuir e ampliar as clínicas, cursos, palestras de Filosofia Clínica que já aconteciam na casa.

Esse reconhecimento de parte da direção da instituição, foi um marco histórico na caminhada da Filosofia Clínica, com esse convite (honroso) para que indicássemos um diretor técnico (médico psiquiatra com especialização em Filosofia Clínica) para a casa. Com isso assumimos uma grande responsabilidade, que mais tarde causou grandes dissabores. Talvez por ingenuidade minha ou por confiar excessivamente na orientação de seu professor na especialização em Filosofia Clínica...

Estávamos enganados, ou melhor, eu me enganei! A responsabilidade e o risco foram meus pelo convite desse cidadão, que depois se descobriu que sequer frequentou boa parte dos estudos em Filosofia Clínica num centro de formação no centro do país.

Logo após sua posse, começaram os problemas! Aos poucos foi minando a interseção que havíamos construído com os colegas de outras áreas no hospital, a direção, desmerecendo nossa atividade, como as clínicas dos Filósofos estagiários, de que forma ? Incluía outras atividades no mesmo horário e local, boicotava os eventos que patrocinávamos na instituição, como o Colóquio de Filosofia Clínica, que se iniciou (as duas edições iniciais!) dentro do hospital psiquiátrico (outro fato inédito em nossa história!), por que ? Porque nosso trabalho era reconhecido, respeitado, os cursos de extensão, aulas, assessorias, atendimentos didáticos, tudo isso dentro da instituição e em cooperação com as demais áreas clínicas. 
   
Assim, depois de alguns meses de convívio, com agressões subliminares, disfarçadas de boas intenções, algo que os covardes sabem fazer bem! Depois de múltiplas provocações, decidi (como coordenador geral) afastar e proteger o grupo de estudos. O hospital, inclusive, sob a orientação do novo diretor técnico, passou a defender práticas de tortura como: o retorno do eletrochoque às pessoas internadas. Aqui cabe lembrar de que nós (assim como outros profissionais) em nossa prática clínica experimentamos nossos tratamentos, antes de oferecê-los aos outros, por que os psiquiatras não fazem o mesmo ?

Queríamos evitar um desgaste maior e sofrimento da equipe de estagiários, dos colegas e amigos envolvidos e que acreditavam em nosso trabalho e comprometimento. Pedimos afastamento de um trabalho que nos enchia de ânimo e motivação para saber mais e contribuir com o processo de entendimento e compreensão dos processos da linguagem fora de si, suas origens, desdobramentos, buscas. Depois disso vieram outras parcerias para estágios, atendimentos...

(...)

Ainda estamos na luta!

Um abraço cheio de esperança e fé na vida!

HS