segunda-feira, 24 de abril de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Vejo muita Filosofia em nossa atividade como Filósofos Clínicos, seja como fundamentação teórica ou prática, mas, também, como fonte de inspiração, um lugar de integração de saberes entre o mundo antigo que retorna (sem ter saído) nos dias de hoje.

Um exemplo disso é a percepção sobre a gradação da medicação selecionada e aplicada em cada caso. Para alguns este ou aquele submodo, para outros e em cada singularidade de acordo com a estrutura de pensamento, serão outras intervenções. Cuidando para que os procedimentos tratem de melhorar a condição existencial da pessoa sob seus cuidados e não o contrário!

No entanto, para alguns o que se propõe é uma intervenção em busca de resignificação existencial, qualificando desconstrução, reconstrução, adição de contradição para superar nós, travamentos, cristalizações, uma conversação com a lógica das crises... Aqui recordo algumas passagens de Heráclito (cerca de 540-470 a.C.):

"Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, nem tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; graças à velocidade do movimento, tudo se dispersa e se recompõe novamente, tudo vem e vai"

"Limites de alma não os encontrarias, todo caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem"
"As coisas frias esquentam, quente esfria, úmido seca, seco umedece"

"Ser e não-ser são e não são os mesmos"

Em outros casos pode ser o contrário disso, ou seja, qualificar uma autogenia de manutenção das coisas, realizando algumas construções compartilhadas para manutenção e algumas melhorias na estrutura de pensamento, assim como se encontram. Nesse viés lembro algumas passagens de Parmênides (cerca de 530-460 a.C.):

"Para mim é comum donde eu comece; pois aí de novo chegarei de volta"

"Necessário é o dizer e pensar que o ente é; pois é ser, e nada não é"

"O mesmo e no mesmo persistindo em si mesmo pousa"

"O que não é, não é! O que é, é!"

Ao Filósofo Clínico atento, perspicaz, estudioso, sensível e com uma aptidão em seu DNA ao fazer terapêutico, cabe perguntar sobre qual a postura diante de cada atendimento? De onde vem os ensinamentos sobre a natureza e alcance da linguagem? Os tempos objetivos e subjetivos, as interseções, lugares, deslocamentos abstratos e sensoriais e tudo mais que for aparecendo em cada um? Assim é possível uma continuidade da coleta da matéria-prima oriunda dos Exames Categoriais, resultando numa leitura mais eficaz da Estrutura de Pensamento e posterior aplicação dos submodos (procedimentos clínicos do Filósofo).

Aqui estamos distantes de uma fórmula geral ou classificação 'a priori'. No constructo metodológico da Filosofia Clínica prepondera discursos 'a posteriori'. O método se realiza com a chegada do sujeito Partilhante, seu jeito de ser, existir. Na qualidade dos encontros clínicos (presenciais!) e não a partir de um saber especialista (livresco) isolado do fenômeno clínico diante de si. Nesse momento nossas leituras, doutoramentos, pós-doutoramentos, atendimentos passados, livros publicados, costumam valer pouco!

Nesse sentido, ao acolher, estudar, compartilhar, com a singularidade Partilhante, o Filósofo vai aprender a estrutura significativa que se apresenta, se seus cuidados serão de uma autogenia de matriz dialética, num processo transformador, estabelecendo uma conversação emancipadora na relação com as crises (o contrário disto seria veneno). Com essa perspectiva a contradição seria bem vinda! Um começo para mudar as coisas para melhor! Integrantes de um processo de longo alcance...

Ou uma autogenia de matriz logicista formal, em uma proposta de manutenção, sustentação, cuidando de algumas melhorias sem oferecer grandes movimentos estruturais (sob pena de significar veneno). Nesse caso se tem a ocupação de manter e sustentar o funcionamento existencial (bem estar subjetivo) afastando conteúdos contraditórios, valorizando um discurso existencial mais retilíneo num caso e obtuso noutro. Um caso onde a contradição seria um erro, uma distorção!

Isso sem contar com as demais variantes autogênicas (algumas trabalhadas na obra: “Filosofia Clínica – Diálogos com as lógicas dos excessospublicada pela editora E-Papers/RJ em 2009, as quais vamos abordar num outro momento.

(...)

Um abraço,

HS