segunda-feira, 3 de abril de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Um movimento essencial ao fazer clínico do Filósofo são os deslocamentos (espacialidade clínica) em direção ao mundo dos outros sob seus cuidados. As pessoas que passam a integrar (pela convivência clínica) a estrutura de pensamento do Filósofo Clínico. Aqui se destaca a fundamental percepção, de parte do terapeuta, dos impactos que essa matéria-prima evidenciada pela interseção possa causar em sua estrutura.

Aí se tem um momento onde teoria e prática se mescla. O exercício do papel existencial permite vislumbrar, com o auxílio de tópicos e aptidões como: epistemologia, expressividade, intuição, tópico de singularidade existencial... essa movimentação de alma do lado do Filósofo, enquanto acolhe, recolhe, compartilha conteúdos clínicos com seu Partilhante. Uma espécie de fiscal da própria estrutura enquanto investiga, reflete, analisa a estrutura sob seus cuidados. 

Nesse ponto se associam a estrutura de pensamento e submodos (procedimentos clínicos) pela via da espacialidade intelectiva, permitindo saber sobre a oportunidade de seus desdobramentos. Noutras palavras, sobre o que acontece na subjetividade do Filósofo, enquanto exercita sua clínica, desde os instantes iniciais, o acolhimento do assunto imediato, as narrativas da historicidade, a movimentação da interseção e tudo mais que for aparecendo.  

Qual o lugar predominante e suas repercussões no entendimento e compreensão do Filósofo Clínico ? O que acontece, na malha intelectiva do Filósofo Clínico, quando dos seus deslocamentos em direção ao mundo do outro e o regresso a si mesmo? Onde se refugiam os segredos dos atendimentos ? Qual a característica principal com a qual acolhe e cuida de seus Partilhantes ?

Essas questões tem a ver com a formação clínica (teoria, seminários, colóquios, estágios, supervisão, prática) do Filósofo, o qual, se oriundo do viés exclusivamente acadêmico (sem uma caminhada existencial mais significativa), pode ter dificuldades para compreender do que se trata, eis que acostumado aos raciocínios bem acabados, definições e tramas conceituais bem fundamentadas, sistemas filosóficos bem ajustados, constituindo uma totalidade em si mesmos. Aqui se trata de acolher e trabalhar com a fratura exposta da sociedade, as pessoas em suas crises de sobrevivência, reinvenção!   

Em Filosofia Clínica, em que pese ter uma robusta fundamentação e sustentação teórica, esses discursos impregnados de boa retórica, podem não valer nada. A atividade terapêutica reivindica uma espécie diferente de gente. Os quais, nem sempre encontram subsídios para suas práticas nos sistemas terapêuticos tradicionais. Alguém que traga de casa uma aptidão singular em transitar pelas vicissitudes do cotidiano. Que consiga efetivar traduções compreensivas, construções compartilhadas, buscar o bem estar subjetivo de si mesmo e do outro sob seus cuidados.

 As respostas para as questões acima serão tantas quantos forem os Filósofos Clínicos. No entanto, cabe lembrar de que existe um eixo de sustentação, um ponto de partida e movimentação pessoal, interpessoal, para a qualificação da atividade clínica. Esse chão é o método da Filosofia Clínica.  

Nesse sentido é importante recordar sobre a importância e o significado de uma boa clínica pessoal (pré-estágio), descobrir quais partes de você desenvolve sua atividade profissional, como se aproxima de outra estrutura de pensamento, como se comporta nesses momentos. Também como se relaciona consigo mesmo diante dos atendimentos e conteúdos que vão surgindo, como trabalha isso tudo. Ainda os estudos que envolvem a supervisão, a gravação dos atendimentos e transcrição com base na literalidade (para preservar a narrativa fenomenológica e evitar, nessa etapa da historicidade, distorções ao discurso Partilhante).

Ao entender seu funcionamento em relação ao funcionamento dos Partilhantes, o Filósofo Clínico pode qualificar seus atendimentos. Exemplo 1: exercitar a plasticidade clínica de acordo com sua estrutura de pensamento, através do papel existencial; exemplo 2: melhorar a percepção dos tempos subjetivos e objetivos do Partilhante; exemplo 3: sentir e aprender qual o melhor lugar para as clínicas (consultório, hospital, casa, jardim...); exemplo 4: Se antecipar em relação às possibilidades de agressão, ameaça (esteticidade bruta) e evitar confrontos desnecessários; exemplo 5: entender quando sua Estrutura de Pensamento se fragiliza (sedução, provocação, jogos...), na interseção com algum Partilhante.

Antes de qualquer outra possibilidade, identificar e trabalhar esses aspectos na própria subjetividade. Se já passou pela etapa da supervisão e clínica pessoal, deve retomar a clínica pessoal, atualizar sua estrutura de pensamento.

É importante lembrar de que esse tema, assim como os demais que vão sendo abordados, se apresenta como uma introdução, um convite para saber mais. A atividade clínica em Filosofia Clínica, reivindica um processo continuado dos estudos, pesquisas, atendimentos, para emancipar o fazer clínico do Filósofo.  

(...)

Um abraço,

HS