sábado, 29 de abril de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*









Como descrever ou compartilhar adequadamente os eventos de um encontro clínico?
Em muitas palestras ou depoimentos sobre atendimentos terapêuticos, alguns impregnados de detalhes, jogo de cena, me questiono sobre a veracidade desses relatos. Na mesma direção também me espanta (um espanto nada filosófico) a convicção e as certezas com que alguns comentadores acadêmicos e não acadêmicos expõe sobre suas leituras, a natureza descuidada das peças retóricas (em que pese ser convincentes!), impregnadas de citação, fazendo crer ser verdade tudo o que se diz.
De um ponto de vista do ‘Mundo como Vontade e Representação’ (Schopenhauer), em se tratando de um olhar significativo, um viés subjetivo de um entendimento específico do mundo, sim existe verdade, pois se trata de um ângulo de visão, uma perspectiva existencial. Nesse sentido cabe reconhecer que toda afirmação possui, no mínimo, um sentido e fundamentação histórica singular, que deve ser respeitado.
No entanto, aqui não se trata disso! Na ótica de uma descrição da atividade do Filósofo Clínico, o mais adequado e honesto seria silenciar, quando se trata de querer dizer algo sobre o que não se consegue falar adequadamente. Mesmo quando se busca alguma aproximação, pela via de um deslocamento longo, por exemplo, ainda assim deixamos de fora uma quantia gigantesca de matéria-prima sobre os conteúdos trabalhados na hora-sessão.
Há alguns anos atrás, cerca de uns 15 anos, se me recordo bem, assisti na TV Educativa um debate (palavra horrível!) sobre terapia. De um lado um Psicanalista e de outro um Filósofo, este último ficou famoso por sua vocação de astro televisivo: Mário Cortella, autor de livros de Filosofia. Nenhum dos dois tratou de Filosofia Clínica.
O que chamou a atenção foi a intervenção do Psicanalista, o qual, de natureza cautelosa, tímida, gaguejante em alguns momentos, parecia não encontrar palavras para traduzir suas vivências de consultório. Já naquela época me identifiquei com sua postura. Hoje tenho essa questão um pouco mais clara, ou seja, a dificuldade de relatar com objetividade tudo aquilo que envolve o fenômeno clínico.
Quanto ao outro debatedor: Mário Cortella, já se revelava, naquele tempo, um bufão. Num discurso cheio de frases feitas, prontas, decoradas, citações, aconselhamentos. Parecia ter respostas para todas as coisas. Uma vergonha filosófica! Inclusive esse autor vende uma enormidade de livros no Brasil. Aliás, o critério para ‘best-seller’ é a quantidade de livros vendidos. Não se cogita sobre sua qualidade técnica ou literária! 
Hoje quando encontro algum tempo e vontade para participar de algum congresso ou seminário (que não sejam eventos turísticos), vejo o quanto temos de avançar num país culturalmente miserável como o nosso. Me interessa cada vez mais o depoimento honesto (e raro) de pessoas que trabalham com pessoas, sejam eles enfermeiros, psicólogos, psicanalistas, filósofos clínicos, cuidadores... Desde que sejam velhos (como os bons vinhos e whiskies!) e tenham uma robusta caminhada profissional, com efetivos atendimentos. 
Que tenham algo a sussurrar sobre sua atividade cuidadora, seus medos e receios, os relatos de sua vida solitária, seus êxitos e fracassos, sobre a ausência de palavras adequadas para comunicar o que se passa em seu cotidiano profissional. Venham nos ensinar esse algo mais sobre a magia da terapia. Acerca da singularidade inaudita das incompletudes existenciais, quando se quer contar o que não se pode dizer por inteiro. 
Tenho cada vez mais repulsa em ouvir peças retóricas bem ajustadas, definições bem posicionadas para referendar o mundo normal, seja ele acadêmico, hospitalar, clínico ou no cotidiano das cidades. Sinto alguns horizontes se emancipando à margem de tudo isso. A mensagem da Filosofia Clínica que a Casa pratica. 
(...)
Um abraço,

HS