quarta-feira, 3 de maio de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Existem muitas formas de interseção com o mundo, a vida, consigo mesmo e os outros. Pode acontecer em casa, nas ruas, nos livros e páginas da vida real ou imaginária, onde possa ser encontrada em seus deslocamentos.

Lembro de uma época na estrada, onde viajava um pouco mais, quando conheci muita gente encantadora (encantada mesmo!), muitas dessas em lugares inesperados, como: atendimentos dentro da igreja, no banco da praça, intervalos de aula, cemitério, em cima da árvore, embaixo da ponte, fazendo compras no mercado, viajando de uma cidade a outra... uma lista infindável! Um desses momentos eu compartilho abaixo, com a literalidade possível guardada na memória.

Esse evento aconteceu no início dos anos 2.000 na rodoviária de São João del Rei/MG, enquanto esperava a Viação Sandra para trabalhar em Belo Horizonte. Trata-se de uma das pessoas mais incríveis que conheci, um desses sujeitos que vive na periferia da vida, nas sombras, a margem das instituições, embora exerça uma enorme influência (sem que se tenha claro isso) em todos nós.

Num dia desses, enquanto aguardava meu ônibus para trabalhar em BH, já com a passagem comprada e revisando alguns estágios, senta ao meu lado um sujeito estranho (acho que pensou o mesmo de mim), vestes humildes, chinelo de dedo, cabeleira despenteada e um sorriso desdentado e sedutor.

Perguntou se eu queria comprar poesia! Olhei, parei, pensei e perguntei: era possível pagar por poesia? Ele disse que sim. Do lugar de onde vinha, tudo era possível... dizia viver no mundo das impossibilidades, onde tudo era possível. Perguntei de onde vinha? Ele disse: das ruas, eu vivo na liberdade das ruas.

E assim a conversa foi se espichando cada vez mais... Confessou que escrever era sua principal fonte de alimento, literal e simbólica. Sua descrição: faço uns trabalhos para os alunos do curso de Letras, alguma pesquisa, redação, crônicas, poesia e eles entregam aos professores pra ganhar nota. Eu recebo alguns trocados, um prato de comida, um trago. Sou bem conhecido pela rapaziada do campus Dom Bosco, esse aí em cima (o campus ficava poucas quadras em frente a rodoviária), apontava o poeta das ruas.

Perguntei se nunca tinha sido pego e se sabia que o que estava fazendo não era legal, talvez um crime? Ele respondeu: na ótica do mundo em que as pessoas normais vivem sim, deve ser ilegal, imoral, crime, mas no meu mundo é diferente. Você sabia que existe um mundo invisível, residindo nas ruas, nos becos, embaixo das pontes, nos prédios abandonados ? Pois é assim que gente como eu vive, sobrevive.

Olha, eu vou lhe oferecer um poeminha pra você ler na viagem. Um não, dois! Espera, leva esses todos, depois eu faço outros. Pra onde você vai mesmo? Vou pra BH a trabalho. O que você faz? Sou professor de Filosofia Clínica. Você trabalha com a cabeça das pessoas então. Acho que pode se dizer assim, eu afirmei.

Já morei em BH, iniciei o curso de Letras na UFMG e tive que parar, minha mulher ganhou barriga e peguei um serviço de auxiliar de faxina na rodoviária de lá. Gostava muito daquele rebuliço todo, as pessoas, ônibus, taxis, a choradeira da partida e da chegada também! Por alguns instantes eu era aquelas pessoas, entende?

Eu pensava que esfregar o chão era muito importante! Imagina só, era o lugar onde essa gente toda caminhava! Sem ele não teriam por onde andar. Então eu caprichava! Varria, lavava, secava, lustrava. Isso foi assim até o dia em que me enrabichei por uma dona boa demais, não sabe? Daquelas com tudo em cima, entende? E vim morar numa casinha em Prados, aqui perto. Não deu certo, ela queria um marido normal e eu era tudo, menos um marido normal.

Vim viver nas ruas aqui em São João, onde tem muita gente jovem e bonita, deve ser pela universidade, né? Fazem muitas festas nesses casarões antigos, eles e reúnem em pequenas tribos, fazem festas, dançam, gritam, fornicam, bebem... Eu fico lá fora e sempre sobra alguma coisinha pra mim.

Um dia desses uma menina me levou um baseadinho e me passou uma cantada, acredita? Veio com uns parangolé esquisito... Fui saindo de mansinho e dei o fora! Já pensou? Fiquei pensando se ela me propõe casamento, essas coisas? Agora tô vacinado, não sabe?

Que bacana conversar (eu não me lembro de ter falado muito) com alguém assim como você, um professor de Filosofia. É verdade que são tudo maluco? Estudam as ideias, os pensamentos das pessoas... é assim né ?

Qual era mesmo o seu ônibus ? Respondi: Viação Sandra. Então deve ser aquele ali que tá saindo! Corri e acenei pro motorista, ainda consegui alcançar enquanto manobrava, não sem antes perguntar o nome do meu inacreditável amigo: como você chama? Ele respondeu escrevendo numa folha: EstricninaAprendi muita coisa em pouco tempo. Inclusive que, ao pronunciar um nome em voz alta, você pode acordar algum Deus maluco, querendo você por perto! 

(...)

Um abraço,

HS