sexta-feira, 12 de maio de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*





                         





No último final de semana (05/06/07/05/2017) estivemos no VI Colóquio Nacional de Filosofia Clínica na linda Petrópolis/RJ. Um evento único, irrepetível, por onde transitaram expressividades em diferentes graus de padrão autogênico. O Colóquio surgiu, como alternativa de diálogo, conversação, num processo libertário e contraditório com o modelo de igreja em que se tornou os encontros nacionais, semana de estudos...

O tema deste ano foi “autogenias” e a coordenação esteve sob a responsabilidade da Casa da Filosofia Clínica Petrópolis. Tivemos mesas de conversação, atividades estéticas, coquetel, danças, música, poesia e muito mais. Tudo sob a supervisão do Prof. Gustavo Bertoche.  
Até meados de 2005 o tema da autogenia estava circunscrito à qualidade das interseções tópicas na estrutura de pensamento. A partir dessa data, numa atividade especulativa, reflexiva, analítica em interseção íntima com os atendimentos em hospícios, comecei a perceber, sentir, aprender uma nova linguagem a qual se estruturava na relação com a desestruturação dos partilhantes ali instalados.

De 2005 a 2009 rascunhei um texto contendo as observações, sensações, ideias, sobre os últimos anos de trabalho nessa área, preservando uma quase invisibilidade (no trânsito por essas instituições) para proteger minhas ideias, formas de intervenção e a equipe de estagiários que me acompanhava.

Nessa época publiquei uma obra intitulada: “Filosofia Clínica – Diálogos com a lógica dos excessos” pela Editora E-Papers/RJ.” Sua dedicatória já indicava o que viria nas páginas a seguir: “Dedico esta obra à multidão exilada em cada um. HS”

Ora, com esses textos breves, buscava contribuir com a qualidade da compreensão dos processos de desconstrução e reconstrução existencial singular, tendo como ponto de partida as crises (assunto imediato) de resignificação pessoal. Mesmo com as dificuldades impostas pela internação involuntária, medicação excessiva... foi possível constatar a emancipação do conceito de autogenia em relação ao seu entendimento anterior (como interseção tópica).

Para recordar: “(...) ainda no esboço das interseções, um festival multifacetado desdobra-se na pessoa. Em seus devaneios as químicas se alternam para ser um”.

Ou então: “Enredos excepcionais e ininteligíveis às lógicas da tradição legitimam o dogma psiquiátrico. Ao assumir rótulos, nomes e tratamentos, com base em diagnósticos que o distanciam de seu mundo como representação, o sujeito passa a integrar a linha de produção da ‘fábrica da loucura’ manicomial.”

Ainda: “O asilo em seu tratamento ortodoxo propõe o regresso do paciente, o mais rápido possível, ao convívio da família, trabalho e amigos, mesmo que isso tudo não lhe faça mais sentido.”

Assim essa obra trouxe, dentre outras coisas, uma modificação do sentido sobre a expressividade em instantes de devir, batizado como autogenia. Um processo existencial ampliado por onde a pessoa, quando abordada, acolhida, cuidada de acordo com sua singularidade transformando-se, terá maiores chances de qualificar seu processo de libertação daquilo que não faz mais sentido.

Direcionando-se para criar, inventar, descobrir um novo lugar dentro ou fora de si mesmo. Nalguns casos até, reinventando por inteiro o si mesmo e assim, modificando linguagem, tempos, interseções, o mundo ao seu redor e seus novos habitantes, no território próprio e alheio.

Também é possível exercitar autogenias na direção de manutenção para deixar tudo como está. Numa atividade de acomodação, re-acomodação existencial em meio ao que já existe.

Assim o VI Colóquio foi um enorme presente!

Quem perdeu, perdeu muito! Sei que existem outros encontros de estudo, seminários, congressos, inclusive turísticos, mas esse foi um evento de conversação com os padrões autogênicos multifacetados, onde uns e outros puderam vislumbrar-se, num acordo ampliado entre singularidades pesquisadoras, clinicas, iniciantes, veteranos, redigindo uma nova obra no cenário do novo paradigma!

(...)

Um abraço,

HS