segunda-feira, 22 de maio de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*



“Digam o que disserem, as pessoas enlouquecem quando não conseguem dar um nome ou categorizar. Sempre o medo, sempre o pânico diante do novo”
                                 Henry Miller


Um dos grandes achados deste novo paradigma, batizado de ‘Filosofia Clínica’, e que permite compreender o fenômeno da singularidade, foi sua fundamentação teórica de natureza filosófica. Embora ainda se precise mencionar: você não vai encontrar o método da Filosofia Clínica lendo Aristóteles, Platão, Sartre, Deleuze, Derrida... Como um evento literal ou uma derivação para aconselhamentos. Nada disso!

Um desses fundamentos é a característica de acolher e abrigar num mesmo constructo, metodologias que, em muitos momentos podem ser contraditórias, não fora sua aplicabilidade equilibrada no discurso clínico. Como o caso da fenomenologia, analítica da linguagem, estruturalismo...

A fenomenologia, por exemplo, penso em Merleau-Ponty e Edmund Husserl, pra começo de conversa, convidam e sustentam o olhar e a escuta do Filósofo, a realizar uma redução fenomenológica ou suspensão provisória dos seus juízos. Busca uma aproximação de maior qualidade com o discurso Partilhante quando revisita sua historicidade, desestrutura e reestrutura sua estrutura de pensamento, indicando, escolhendo ou deixando de lado procedimentos de natureza pessoal ou impessoal. Nas várias fases da terapia. Procurando conviver com suas possibilidades ou impossibilidades existenciais.

O acolhimento dos fenômenos presentes na clínica, num primeiro instante, tem a ver com uma mescla de atributos, nem sempre presentes na pessoa do candidato a Filósofo Clínico, ou seja: talento, vocação, sensibilidade, disciplina, estrutura aprendiz...

Veja-se o caso dos movimentos de visitas e revisitas ao mundo como representação do outro. Um desses momentos onde o Filósofo coloca sua estrutura de pensamento, através do tópico papel existencial ou epistemologia ou intuição, como pré-requisito para saber mais desse outro. Uma interseção gradativa de aprofundamento com essa novidade diante de si, para bem depois dos assuntos imediatos, percebendo o assunto último, seus desdobramentos autogênicos.

A postura fenomenológica (um dos momentos da terapia, não a terapia inteira, ok ?) busca descrever o fenômeno diante do olhar. Não quer julgar, classificar, nomear apressadamente, nem utilizar as lentes desatualizadas pelos seus próprios limites de entendimento e compreensão. Aqui a experiência do profissional pode contar muito pouco diante dos originais diante de si mesmo e dos desdobramentos da interseção clínica.   

Nesse sentido é possível entender melhor o susto, a ameaça, os medos e inseguranças de determinadas abordagens clínicas, as quais estão baseadas em tipos cristalizados, mecânicos, classificações que distorcem originalidades, para engessar numa leitura estereotipada (que poderia fazer sentido noutros contextos) já consagrada do que é valido ou não, normal e patológico, possível e impossível, noutras palavras: condiciona, castra, produz aquilo que se propõe tratar.  

O refúgio na farmácia do hospício, por exemplo, pode significar algo para algumas pessoas, em determinados momentos de sua história, aqui não vou entrar na questão da propaganda farmacêutica, dos congressos médicos patrocinados, das leis que sustentam suas práticas (estamos num momento extremamente sensível, no que diz respeito ás pessoas que fazem as leis desse país...!), já para outros pode ser o começo de uma trama para justificar sua existência (hospícios, internação involuntária, medicamentalização, instituição da loucura, patrocínio, distinção e honra ao mérito por ser normal...). 

Como diferenciar uma coisa de outra coisa ? Sim, as pessoas, dependendo da metodologia e crenças com que são ‘tratadas’, podem se transformar em coisas (objeto) ou vegetal ou num móvel da casa. 

Assim o constructo de fundamentação teórica e prática da Filosofia Clínica consegue entender o espectro metodológico das demais abordagens (clássicas), inclusive servindo como fonte de inspiração para outras que vão chegando. Uma terapia que possui em sua matriz metodológica a aptidão aprendiz de desconstruir-se e reconstruir-se de acordo com as interseções que mantém. Um método revolucionário ainda em fase de apresentação (tímida) ao grande público.

(...)

Um abraço,

HS