quarta-feira, 24 de maio de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


O discurso existencial de uma pessoa, quanto mais impregnado de originalidade, seja ele escrito, pronunciado, vivenciado, costuma ser avesso ao saber reconhecido. Ao possuir componentes de transgressão, revolta, insubmissão, se depara com os limites das normas dos princípios de verdade. Aparece desautorizado a ultrapassar fronteiras.

Alguém assim estruturado, em vias de um devir desestruturante, aprecia uma fonte de inspiração interminável, de onde surge micro explosões de expressividade. Ações impregnadas de ousadia narrativa, imaginante, comportamental, em versões distanciadas do padrão autogênico de sua aldeia. Seu aspecto de ser irreconhecível, raras vezes encontra uma tradução adequada, um método, uma pessoa capaz de estabelecer interseção com essa estranheza em curso.

Noutras palavras, para sustentar o ‘status quo’ de qualquer circunstância, mesmo o êxtase revolucionário da criação estética (aqui se incluem as ressonâncias das construções compartilhadas na clínica), por exemplo, parece ser necessário permitir uma agregação e desagregação permanente, por onde essas pessoas consigam experienciar (numa base de segurança e confiança) novos territórios dentro de si mesmas. Um ponto de partida para explorar esses recantos ainda sem nome na própria geografia.

A manifestação estética (música, teatro, poesia, cinema...) é um desses espaços de convívio com a criatividade dessas nomenclaturas fora da lei. Com ela é possível cogitar, nalguma forma diferenciada de expressão singular, conteúdos que de outra forma restariam desmerecidos, julgados, assassinados por alguma das formas existentes. Por essa via, nem sempre legível ou passível de medir, se manifestam muitas subjetividades, internadas em seu jeito de ser, conviver, romper com aquilo que as oprimem, num resgate de seu ser natural, esse chão que lhe pertence por inteiro.   

Essa trama discursiva parece reinventar o vocabulário de um jeito próprio. Para acessar essa nomenclatura estranha, pode ser um bom começo aguardar um convite ou momento propício para conhecer e saber mais sobre esse espaço de vida momentaneamente desajustado, mutante.

Nessas palavras se insinua a existência de uma regularidade expressiva. Uma realidade quase invisível aparece em atitudes, gestos, falas, por onde é possível acessar as lonjuras por onde a pessoa se desloca. Os termos agendados no intelecto, por exemplo, costumam ajudar a entender as origens e desdobramentos dessa fonte discursiva, seu esboço de experimentação fora de si.

A representação desses fenômenos costuma ter uma complexidade incrível, talvez por conter linguagens ainda sem tradução ao próprio sujeito. Pressupõe um acolhimento compreensivo para conviver, interagir com essas irregularidades narrativas, antes de ser corrompidas pelos regramentos do mundo lá fora.

Aqui reivindica-se um tradutor de raridades!

(...)

Um abraço,

HS