quarta-feira, 31 de maio de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Uma das atividades essenciais do Filósofo deve ser sua habilidade e competência de perguntar, investigar. Se associarmos esse fundamento a alguns outros, como: capacidade de espantar-se, observar, questionar os pressupostos alheios e os próprios, dialogar com posturas e pontos de vista divergentes, analisar, refletir... Teremos um exercício de qualidade ao Filosofar.

Para isso o estudante de Filosofia se coloca num processo de aprendizagem, o qual se inicia com os 4/5 anos da graduação, compondo leituras, grupos de estudo, publicações, seminários, estágios... Feito que o habilita a prosseguir seus estudos noutro padrão autogênico. A maioria costuma escolher ou é escolhido pela especialização, mestrado, doutorado. Um caminho árduo que requer vocação, talento, dedicação, habilidades, disciplina... Outros buscam o exercício, no discurso empírico, assumindo trabalhos nalguma empresa, setor público, objetivando a trama conceitual filosófica, derivando para outras profissões.

Antes da Filosofia Clínica, um pouco antes dos anos 90, graduados em Filosofia, vocacionados para a atividade clínica, tinham em algumas correntes psicanalíticas, um espaço de estudos, aprendizagem, exercício terapêutico. Inicialmente destinados aos Médicos, Psicólogos, Assistentes Sociais... logo professores e supervisores dessas áreas perceberam ser insuficiente cursar essas especialidades para ser terapeuta. Assim, abriam-se as portas para o ingresso de outros profissionais, como os Filósofos.

Com a chegada do novo paradigma da Filosofia Clínica, os Filósofos (dentre outros profissionais) que tinham interesse nessa abordagem vislumbraram um papel existencial ainda sem nome, em que pese sua singular vocação e habilidades já existirem. Cogito que se o novo modelo não surgisse, a Psicanálise talvez continuasse abrigando essa leva de graduados com aptidão para investigar, refletir, compreender, atuar com pessoas em seus instantes de ressignificação existencial.

No meu entendimento, a revolta inicial de alguns setores da Filosofia, se deu (dentre outros aspectos..) por desconhecimento de que já existiam graduados em Filosofia que exerciam a Psicanálise (não vamos cogitar sobre o desconhecimento de onde surgiu a Psicanálise, sua fonte de inspiração filosófica), a qual, como outras especialidades, não é uma atividade reconhecida pela lei, embora amplamente legitimada pela sociedade, bem assim a nascente Filosofia Clínica, iniciada por Lúcio Packter, desenvolvida por seus ex-alunos.

Nesse sentido, me parece importante destacar esse fundamento filosófico, o qual deve permanecer vivo na expressividade cuidadora, ou seja, a reflexão crítica, analítica, observação dos fenômenos que envolvem a atividade da formação, o exercício clínico, centros de formação, conteúdos programáticos, estágios, supervisão, os conflitos próprios, os padrões autogênicos envolvidos, as escolhas, buscas, direcionamentos de pesquisa, publicações...

Essa ideia me parece importante, não para discriminar quem não possui a graduação em Filosofia, mas, ao contrário, para reconhecer e permitir que colegas de outras áreas, com habilidades ao ser terapeuta, possam sentir-se acolhidos e convidados a saber mais sobre a Filosofia que fundamentou a Filosofia Clínica, e que se atualiza permanentemente com a sua chegada, novas leituras, releituras.

Também significativo notar que a graduação em Filosofia, por si só, não habilita o exercício clínico. Até porque as escolas brasileiras possuem uma orientação diferenciada, exemplo: enquanto uma aprecia mais a versão analítica, outra prefere uma postura fenomenológica, ainda outra o viés teológico, etc, etc...

As palavras finais dessa breve introdução são para àqueles estudantes de Filosofia Clínica, com os quais não tenho o privilégio de conviver, trocar ideias, compartilhar leituras, aprendizagens: estudem a nova disciplina com amor, dedicação, carinho, entrega... No entanto, jamais deixem de filosofar (analisar, refletir, comparar textos, práticas...), caso contrário estaremos fundando mais uma igrejinha no rol daquilo que já existe. Transitem nas obras, seminários, encontros, semanas de estudo, colóquios, vejam de perto quem é quem, não se acomodem com opiniões alheias, sejam elas elogiosas, críticas, maldosas. O Filósofo, por vocação e formação, é alguém comprometido com a busca incessante de melhorar seu barquinho existencial.

(...)

Um abraço,

HS