quarta-feira, 14 de junho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


O horizonte da terapia, sob muitos aspectos, depende do horizonte Partilhante. Bem assim do construto clínico do Filósofo, aí incluído seus estudos, supervisão, a plasticidade, estilo pessoal de acolhimento, cuidados, atenção a autogenia, desde o assunto imediato aos movimentos de maior alcance na malha intelectiva. 

Cabe ao Filósofo Clínico estar atento aos sinais da relação clínica, ou seja, ao conjunto de indícios que vão surgindo, sem, no entanto, considerar ou desconsiderá-los excessivamente. Respeitar os critérios básicos para identificação tópica (em rede) e submodos (pela via discursiva) pode ajudar: evolução do assunto imediato, dado literal, dado padrão, relação... 

Perceber as predisposições narrativas, em diferentes momentos da terapia, ou seja, quando a pessoa estiver cansada, aflita, irritada, desestruturada, equilibrada, descansada, os ritmos e termos agendados no intelecto próprios ou tomados de empréstimo pela via dos agendamentos... Esse dado pode significar uma maior visibilidade das predominâncias à pessoa, para bem depois das queixas preliminares.

No entanto isso pode não bastar! Aqui penso na qualidade da interseção entre os envolvidos, os desdobramentos, adições e subtrações, divisões e multiplicações dos conteúdos clínicos que vão aparecendo, já na etapa dos exames categoriais e prosseguindo bem depois, até a fase da alta compartilhada.  

O espaço de visibilidade no qual a pessoa exercita seu cotidiano, costuma se modificar (as vezes radicalmente, inclusive ficando irreconhecível aos membros de sua tribo atual) no processo da terapia. Nesse sentido as janelas podem se ampliar, diminuir, mudar endereço, alterar distâncias...

Nesse lugar privilegiado onde a clínica acontece (não me refiro ao espaço físico), inicialmente com o estudo da geografia subjetiva, o Filósofo trata de compreender as razões, desrazões e tudo mais que possa surgir. Antes de mais nada, trata de aprender qual o chão onde poderá transitar, a espécie de autorização que terá para decifrar a linguagem, lugar, formas, onde o Partilhante elabora seu discurso existencial.  

A categoria tempo (exames iniciais) pode auxiliar no desenvolvimento da clínica, qualificar a interseção, o entendimento (epistemológico), a compreensão (construção compartilhada), contribuir para que esse lugar onde Filósofo e Partilhante se encontram, seja um espaço favorável aos horizontes da Terapia. 

Lembrando de que esse processo tem ingredientes únicos, nem sempre possíveis divulgar, relacionados as especificidades dos encontros. Levando-se em conta o momento existencial de cada Partilhante (se está maduro para o processo clínico, por exemplo), a preparação do Filósofo e muitos outros aspectos que podem surgir na duração da clínica, a qual tem hora e local para iniciar, permanecendo inconclusa enquanto for necessária. 

(...)

Um abraço,

HS