quarta-feira, 28 de junho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


A atitude de recíproca de inversão (atenção, movimento em direção ao outro) é um dos fundamentos da atividade clínica do Filósofo. Quando combinada com outros tópicos da estrutura de pensamento, qualifica o exercício do papel existencial.

Uma dessas combinações é a recíproca com a inversão, onde o papel existencial do Filósofo se abastece com a matéria-prima do outro lado da interseção (Partilhante) e retorna ao seu eixo estrutural para ler, reler, planejar, os dados diante de si mesmo (epistemologia), para devolvê-los em forma de cuidados.

Outro aspecto importante é a leitura que o Filósofo Clínico faz de sua própria estrutura, enquanto lê a estrutura de pensamento do Partilhante, seus movimentos de adição, subtração, multiplicação...

Existem muitas armadilhas (no sentido de ameaça) nessa atividade, algumas trabalhadas durante a formação clínica do Filósofo, desde suas leituras preliminares, estudo da teoria, clínica pessoal, até a supervisão, e prosseguindo depois com a formação continuada: seminários, colóquios, grupos de estudo...

Uma dessas arapucas ocorre quando o aprendiz vai ao mundo do outro (recíproca com o Partilhante) e não consegue retornar ao seu espaço subjetivo por inteiro (não realiza um movimento inversivo de qualidade), seja porque se perdeu em meio às tramas conceituais e desdobramentos do outro, suas ideias complexas ou algum aspecto singular da interseção, não trabalhado adequadamente em sua clínica pessoal.

Nesse sentido, existem duas certificações em Filosofia Clínica, uma é a titulação de especialista, para quem frequentou a parte teórica do método, com duração aproximada de 24 meses. Outra é o certificado “A” (habilitação clínica), que qualifica o Filósofo graduado a exercer a terapia com base no novo paradigma. Para isso deverá vencer a parte teórica, prosseguindo seus estudos na direção da formação, incluindo dentre outros: aulas avançadas, a clínica didática (terapia pessoal gravada, transcrita...), supervisão, seminários... numa duração aproximada de 04 anos.

As ameaças a perda da perspectiva clínica são inúmeras. Não vou esgotar suas possibilidades nesse texto, se é que isso seria possível. Quero destacar algumas: o deslocamento exagerado em direção ao Partilhante, pessoas com forte apelo emocional; sexual; carisma enorme; artistas com os quais o Filósofo se identifique, quando buscam a clínica filosófica; pessoas com grande proximidade do dado emocional, axiológico, buscas...

Esse aspecto (dificuldades da interseção) também acontece quando o estudante ingressa na fase da supervisão, muitas vezes não se conformando com as observações críticas do professor. Inconformado, busca outro centro de formação. Nem sempre o novo orientador busca informações sobre a caminhada de estudos, os atendimentos gravados e supervisionados do aluno recém chegando... Aqui os riscos se apresentam na forma de uma frágil formação ou, talvez, numa certificação pífia, onde o diplomado não está preparado para atuar em consultório (enganando o novo orientador e a si mesmo!). Não penso aqui nos problemas de interseção legítimos, que existem, fazendo com que o supervisionado, em alguns casos, busque alternativas para a conclusão de sua formação.

Quanto a essa atividade das idas e vindas (recíproca de inversão e inversão), sua busca de melhorias nas aulas, em casa, nos atendimentos (formais e informais), pode ser aprimorada com filmes, literatura, teatro, estudo de casos clínicos... Aqui é fundamental ao candidato a Filósofo Clínico aprender e fortalecer seu ponto de equilíbrio nesses deslocamentos subjetivos. Isso pode acontecer através da epistemologia, papel existencial, pré-juízos...

Nos casos de maior dificuldade, já na etapa da supervisão, não é raro o Filósofo buscar outra opinião junto aos seus colegas de maior interseção, outro ponto de vista, sobre a natureza, o alcance, a eficácia da clínica em desenvolvimento com seu Partilhante.

Outro aspecto que pode ser problemático é o Filósofo Clínico entender com a escuta fenomenológica, e o partilhante se comunicar pela escrita. Nesse caso, toca ao terapeuta aprender o caminho por onde a pessoa transita (semiose), de forma predominante e, assim, exercitar sua plasticidade na direção de encontrá-la onde ela exercita seu devir existencial, para lá realizar os atendimentos.

(...)

Um abraço,


HS