quarta-feira, 7 de junho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

         
              
A palavra semiose é uma derivação de semiologia, que significa a ciência geral dos signos, dos sistemas de significação. Em Filosofia Clínica o termo indica o que a pessoa usa para se comunicar: fala, escrita, desenho, silêncio, gestos...

Esse dado já se destaca nos momentos iniciais da clínica, por onde o Filósofo trata de aprender com seu Partilhante, qual seu veículo preferido para se comunicar. Nessa mesma direção, como viabiliza sua retórica existencial nos diferentes padrões autogênicos do seu cotidiano.

Algumas pessoas usam quase sempre o mesmo dado de semiose, a fala, por exemplo, mesmo quando transitam por lugares diferentes. Outras possuem uma estrutura diferenciada, com a qual são capazes de regular, desajustar, reajustar adaptando sua forma de expressão de acordo com as necessidades da vida.

O tema da semiose em clínica é amplo e se desdobra em cada tentativa de aprisionamento nalguma definição. Na abordagem da Filosofia Clínica, essa questão é tranquila, pois o Filósofo se utiliza do recurso fenomenológico (dentre outros..) para acolher, compreender, interagir com a estrutura de pensamento recém chegando.  

Talvez um dos aspectos determinantes dessa profissão, seja o significado e o alcance da semiose na atividade de consultório. Como se trata de uma via de mão dupla, um ponto onde a interseção pode acontecer ou não acontecer, é preciso ter clareza, objetividade sobre a sintonia determinante para acessar a mensagem do Partilhante.

Um caso que se repete, muitas vezes como assunto imediato (início da terapia), é a expressão, usualmente proferida por alguma mãe: ‘criei meus 5 filhos do mesmo jeito e cada um é diferente do outro’ ou ‘eu falo, falo, falo e não me entendem’; outro exemplo é o professor em sala de aula, que se utiliza sempre da escrita no quadro, o qual vai atingir apenas uma parte da turma, outro grupo pode querer uma explicação falada, ou utilizar textos, vídeos... Noutras palavras: deve-se buscar a semiose determinante as pessoas envolvidas.

Se fizermos um exercício básico de associar a semiose com o significado, pode acontecer de você dizer uma coisa e a pessoa entender outra, quando estiver em dessintonia com sua expressividade. Outro aspecto da mesma circunstância é fazer uma careta querendo cumplicidade, sendo recebida como afronta ou desmerecimento...

O dado de semiose importa como um fundamento da relação clínica. Para isso o Filósofo cuida de aprender qual a via predominante para acessar e manter uma comunicação de qualidade com o Partilhante. Nessa direção também cabe estudar, ao longo dos exames categoriais, os movimentos da espacialidade intelectiva, os meios por onde a comunicação acontece. O que prepondera em cada endereço existencial por onde a pessoa transita.

É possível ser a dissintonia entre os conteúdos da expressividade de uma e outra pessoa, uma das grandes causas de conflitos, desentendimentos. Muitas vezes os interlocutores querem dizer a mesma coisa, usando as mesmas palavras com sentidos ou formas de semiose diferenciadas. Usam expressões, gestos... dando uma orientação própria nem sempre compreensível aos demais, as quais podem chegar como distorção, ruído, incompreensão...

Ainda é possível destacar a complexidade dos princípios de verdade, os termos agendados que se desdobram em tramas de labirinto, dialetos, rupturas discursivas inaugurando tribos, interseções em contextos diversos... Podendo significar uma boa dose de desmerecimento a quem não se enquadra no teor discursivo do lugar. Com o dado de semiose bem apurado, pode-se aprender muito a respeito dos outros, desvendar subjetividades, acolher desconstruções existenciais, efetivar reconstruções... Trata-se de uma conexão decisiva para conhecer e transitar pelos imensos territórios da singularidade. 

(...)

Um abraço,

HS