sábado, 1 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

              
Um dos maiores desafios da atividade clínica do Filósofo é entender a linguagem na qual seu Partilhante se estrutura, se expressa. O veículo por onde suas ideias, sentimentos, sensações se dão ao olhar desse outro que o acolhe, legitima, compartilha.

O universo subjetivo do Partilhante possui endereços conhecidos e desconhecidos ao próprio titular. Mesmo quando se manifesta através de algum teor discursivo, ainda assim deixa escapar conteúdos, seja por desvalorizá-los ou desconhecê-los, eventos invisíveis a malha intelectiva dos dias de hoje.

Nesse sentido o Filósofo Ernst Cassirer contribui e fundamenta essa percepção ao dizer: “A linguagem encerra um sentido oculto a ela própria, que ela somente pode decifrar por conjecturas, através da imagem e da metáfora”. Um procedimento auxiliar para qualificar essas traduções do Partilhante, pode ser o dado escrito, seja ele um diário, poesias, desabafos manuscritos... Numa busca para compreender as origens da matéria-prima tópica determinante. Um procedimento eficaz, quando associado, pode ser o vice conceito, numa aproximação simbólica com esses recantos da geografia interna.  

Os deslocamentos: idas e vindas, reviravoltas, pontos de equilíbrio... da estrutura de pensamento apreciam se mostrar no convívio com a vida lá fora. Nem sempre é fácil acessar esses meandros do discurso existencial singular, seja por imperícia do Partilhante, dificuldade em eleger um dado de semiose (para se comunicar) que torne possível a comunicação, impaciência, descaso (muito comuns nos dias de hoje) em ouvir os outros.

Cassirer diz assim: “Se a linguagem, nos seus termos conceituais complexos, não constitui um reflexo da realidade sensível, mas antes um reflexo das operações do espírito, conclui-se necessariamente que esse reflexo pode e deve efetuar-se de maneiras infinitamente múltiplas e variadas”. A linguagem assim descrita é um veículo de expressão e comunicação interpessoal, que pode ser eficaz e poderosa quando adequada e em conformidade com a vida interior da pessoa ou produtora de ruídos, distorções, quando não encontra uma via de interseção favorável para traduzir sua versão de maior intimidade.

O conceito de singularidade em Filosofia Clínica se baseia, também, em escritos como esse do autor da ‘Filosofia das formas simbólicas’: “Se o conteúdo e a expressão do conceito não dependem da matéria que compõe as diversas representações sensíveis, e sim da forma de sua combinação, cada novo conceito da linguagem representa uma nova criação do espírito”.

Aqui cabe destacar o radical distanciamento do novo paradigma em relação às abordagens clássicas, ou seja, cabe ao Filósofo Clínico aprender com seu Partilhante, de que maneira compõe, combina e reorganiza em sua estrutura de pensamento, de forma única e irrepetível, as representações e demais dados objetivos com os quais seu exercício existencial vai sendo abastecido.

Noutras palavras, como pode uma mesma vivência repercutir de maneira diferente em duas ou mais pessoas ? Parece que podemos focar essa leitura naquilo que se encontra como semelhante (padrões) entre as pessoas e aquilo que é dessemelhante, buscando encontrar a singularidade refugiada na miopia de métodos que sustentam manicômios, indústria farmacêutica psiquiátrica, idolatram o deus remédio (da farmácia da rua), o espírito de rebanho, o controle e a submissão do fenômeno humano, que nasceu para brilhar e se desenvolver, de acordo e na medida com sua ousadia existencial.

Um abraço,

(...)

HS