segunda-feira, 10 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Em Filosofia Clínica o conceito: Construção compartilhada adquire uma conformação única, num pressuposto fundamental a atuação terapêutica do Filósofo. Aqui cabe lembrar que em um novo paradigma, mais que trazer uma nova mensagem, uma visão diferenciada, uma emancipação das anteriores formas de interseção com o fenômeno humano, cuida-se de aprender os novos conceitos, os termos que integram a nova abordagem, seu sentido específico e a nova concepção de homem, mundo, terapia que oferece.

Nesse novo modelo de clínica trata-se de compreender a natureza e o alcance das construções compartilhadas. Em que medida é possível qualificar a arte do convívio entre as pessoas, melhorar relacionamentos consigo mesmo e a vida ao seu redor.  

Pela importância e significado que essa expressão possui, ela adquire um status de arte, ou seja, uma esteticidade seletiva capaz de contribuir, desde cedo, com a relação clínica, já no instante preliminar dos assuntos imediatos, na colheita dos exames categoriais, estrutura de pensamento (identificação dos assuntos últimos), no processo dos submodos.

Um autor essencial para se entender esse procedimento (construção compartilhada) que perpassa a metodologia inteira, como fonte de convívio, desconstrução, reconstrução, busca de bem estar subjetivo e muito mais é Hans-Georg Gadamer, em sua obra “Verdade e Método – Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica” (Vozes, 1997).

Numa abordagem de essência construção compartilhada, tudo aquilo que aparece (fenomenologicamente) pode ser utilizado para ajustar o ângulo de visão compartilhado, seja a imprescindível historicidade, como um chão e acesso ao vocabulário de maior intimidade ou a etapa mais interativa dos procedimentos clínicos avançados (submodos).

No caso dos exames categoriais, por exemplo, é importante lembrar o que o pensador contribui, como fonte de inspiração para saber mais sobre o Partilhante: “(...) o que se afirma das fontes escritas, que nelas cada frase não pode ser entendida a não ser a partir de seu contexto (...)”. Prossegue assim: “(...) o contexto histórico (...) no qual mostram-se em seu significado verdadeiramente relativo, os objetos individuais da investigação histórica (...) a partir do qual pode-se compreender plenamente cada elemento individual em seu sentido, e ele, inversamente, só pode ser plenamente compreendido a partir desses elementos individuais”.

Para o momento onde o Filósofo já possui um acesso confiável à estrutura de pensamento do Partilhante (em Filosofia Clínica não há Pa_ciente), Gadamer contribui dizendo: “Compreender significa, de princípio, entendimento. Assim, os homens se entendem entre si, na maioria das vezes imediatamente, isto é, vão se pondo de acordo até chegar a um entendimento. Acordo é sempre, portanto, acordo sobre algo. Compreender-se é compreender-se em algo”.

É insuficiente querer entender o novo paradigma a partir, tão somente, das palavras do autor de Verdade e Método, aqui ele é lembrado, como uma das fontes de leitura imprescindível, para se entender o alcance do conceito de construção compartilhada, tão caro ao novo método da Filosofia Clínica.

A percepção de que Verdade e Método fundamenta o tópico pré-juízo da estrutura de pensamento é verdadeira, embora incompleta. Esse esboço tenta mostrar isso, atribuindo também a essa obra singular (Verdade e Método), seu viés de fundamento à arte da construção compartilhada.

A hermenêutica filosófica, como ensina Gadamer: “É a arte de evitar o mal-entendido”. Sendo assim, cabe ao maestro da atividade clínica (Filósofo Clínico), extrair da interseção, tudo aquilo que a qualidade e a quantidade dos encontros terapêuticos permitir, num processo onde os participantes não são mais somente um e outro, mas uma integração momentânea em busca de objetivos que vão surgindo diante desses universos existenciais singulares.

A etapa avançada do processo clínico (submodos) é a parte mais dinâmica, onde acontecem os desdobramentos mais eficazes, via de regra, em Filosofia Clínica, nesse instante os diálogos costumam ser favoráveis ao bem estar Partilhante e, muitas vezes também ao Filósofo Clínico, constituindo uma condução compartilhada da atividade clínica.

Conforme Gadamer, citando Schleiermacher: (...) o diálogo livre (...) neste as ideias praticamente não são levadas em consideração pelo seu conteúdo. O diálogo não é mais que uma estimulação recíproca da geração de ideias, uma espécie de construção artística na relação recíproca da comunicação”.

Tendo-se o discurso existencial produzido na hora clínica como uma resultante das construções compartilhadas, e entendendo esta como um ingrediente fundamental da arte terapêutica em Filosofia Clínica, pode-se saber mais ao ler e reler passagens como essa de Verdade e Método: “E aí onde o discurso é arte, o é também o compreender. Todo discurso e todo texto estão referidos fundamentalmente à arte de compreender (...)”.

A integração de duas ou mais singularidades na terapia, institui formas plásticas, por onde as trocas discursivas se efetuam, como uma dança de padrões autogênicos para localizar o melhor lugar para se viver, conviver. Em Verdade e Método se aprender assim: “(...) Ganhar um horizonte quer dizer sempre aprender a ver mais além do próximo e do muito próximo, não para apartá-lo da vista, senão que precisamente para vê-lo melhor, integrando-o em um todo maior e em padrões mais corretos”.

Talvez um dos maiores significados da terapia seja o fato de alguém (Partilhante) ser acolhido, compreendido, em seu território existencial (objetivo e subjetivo), em sua própria linguagem. A partir daí podem ocorrer acréscimos de confiança, trocas, acordos, elaborações em comum, no lado a lado da interseção, de um modo específico e referidos a natureza de cada encontro.  

O novo paradigma da Filosofia Clínica, sob muitos aspectos, ainda incompreendido, do ponto de vista do establishment, se encontra plenamente reconhecido, valorizado pelos Partilhantes, que encontram nesse acolhimento um refúgio para seu devir em processo de ser singular.

Um abraço,

(...)


HS