quarta-feira, 19 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*

    
Um elemento de destaque em Filosofia Clínica, para se entender a movimentação interna da estrutura de pensamento, em seus deslocamentos, acordos, ruídos, impulsos desconstrutivos, reconstrutivos... é a aptidão do Clínico em sentir, perceber, como acontece, em cada pessoa, o processo da sua estruturação/desestruturação existencial, ou seja, com base na historicidade (contada pelo próprio Partilhante e com redução fenomenológica do Filósofo) de cada um, identificar as predominâncias de assunto imediato, assunto último...

Bem assim visualizar a estrutura de pensamento refugiada nas periferias de si mesma, nos subúrbios e recônditos mais distantes do assunto último recém identificado, acolhido, tratado na terapia.

Esse território subjetivo é um espaço singular, abastecido permanentemente com os eventos da vida de cada um: vivências, conquistas, rupturas, sonhos, tristezas, alegrias... O pacote completo, na perspectiva de cada um, até o instante da leitura atualizada de sua estrutura.

A estrutura de pensamento possui características próprias, no curso de um cotidiano que se movimenta, nem sempre em acordo com suas vontades, buscas, axiologias, pré-juízos... onde cada sujeito experiência, em sua condição histórica (localização existencial através dos exames categoriais), e imerso num constructo de agendamentos dos princípios de verdade (cultura sociedade...), suas condições de possibilidade e desenvolvimento existencial.

Ernst Cassirer na Filosofia das Formas Simbólicas contribui: “Se a linguagem, nos seus termos conceituais complexos, não constitui um reflexo da realidade sensível, mas antes um reflexo de operações do espírito, conclui-se necessariamente que esse reflexo pode e deve efetuar-se de maneiras infinitamente múltiplas e variadas. Se o conteúdo e a expressão do conceito não dependem da matéria que compõe as diversas representações sensíveis, e sim da forma de sua combinação, cada novo conceito da linguagem, representa uma nova criação do espírito”.

Na abordagem da Filosofia Clínica existe critérios para identificar os tópicos determinantes, periféricos, subliminares... Alguns deles: os desdobramentos do assunto imediato, o dado padrão, o dado literal, o dado atual, a intuição, a qualidade da interseção, a continuidade do processo clínico...
As autogenias (movimentação, dialética..) dentro da estrutura de pensamento, estão intimamente relacionadas aos conteúdos de matéria-prima existencial da pessoa, ou seja, essas aproximações, rupturas, distanciamentos, associações, contradições... faz parte (integra) do próprio movimento da vida de cada um.

A representação de mundo, os papéis existenciais, as axiologias, as buscas... quando eventos significativos do cotidiano singular, costumam determinar o alcance, a profundidade, a relativa autonomia desses deslocamentos na malha intelectiva do sujeito, bem como seus desdobramentos existenciais. Aqui estamos numa percepção de idas e vindas, numa troca permanente entre o fora e o dentro, realidade subjetiva e realidade objetiva, singularidade, particularidade, universalidade...

Os padrões autogênicos, nesse sentido, podem atualizar a estrutura de pensamento em várias direções (dentro da possibilidade de cada um), inclusive permanecer como se encontra. Nesse sentido, querer determinar (a priori e mesmo a posteriori) itens como: qualidade e quantidade desses impactos na subjetividade ( e demais relacionamentos) de cada pessoa é uma pretensão descabida (profecia arriscada), até porque se desconhece uma matriz única (embora as certezas de alguns métodos) para o funcionamento existencial de todas as pessoas.  

Assim diz Cassirer: “(...) toda forma de espírito verdadeiramente original cria a forma linguística que lhe é apropriada”, noutras palavras: pode ficar inacessível querer traduzir/interpretar uma comunicação qualquer, a partir de um referencial discursivo que não o da própria pessoa a emitir suas pronúncias existenciais. Deve-se isso sim, qualificar a natureza da interseção, observações, aproximações, e demais estudos a partir do outro que se apresenta em tempo, lugar, linguagem própria, desvendar compartilhado com esse jeito inédito de ser que se apresenta como um outro na relação clínica.

(...)

Um abraço,

HS