segunda-feira, 24 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


Talvez uma das maiores conquistas da Filosofia Clínica, seja nos ensinar a pensar, agir, conviver, sem tipologia, classificação, diagnóstico! Emancipar o conceito de singularidade com tudo o que isso possa significar.  

Noutras palavras, para entender uma pessoa, pode ser insuficiente enquadrá-la nas classificações, rótulos conhecidos. Já que cada um é um fenômeno irrepetível, possui uma historicidade impregnada de verdades, agendamentos, vivências...

Um dos autores que contribui para esse processo de compreensão e libertação na direção do ser singular, em suas múltiplas formas de expressividade, é Wittgenstein em suas “Investigações Filosóficas”, quando ensina: “Não se pode adivinhar como uma palavra funciona. É preciso que se veja a sua aplicação e assim se aprenda. A dificuldade é, porém, eliminar o preconceito que se opõe a este aprendizado”.

O pensador fundamenta a teoria e a prática da Filosofia Clínica. Recorda a necessidade de se qualificar a escuta, o acolhimento, a interseção com a origem dessa matéria-prima oferecida na expressividade Partilhante (sem as correções e agendamentos da tradição). Na mesma direção, cuidar da epistemologia que cuida e investigar quais partes da estrutura de pensamento do Terapeuta entra em interseção com esse território virgem diante de si. Delimitar o sentido, a direção, a intencionalidade da autoria é um fundamento indispensável, para objetivar os movimentos de reciprocidade com o outro sujeito diante do Filósofo Clínico.

Numa sociedade impregnada de princípios de verdade, pode-se observar uma variedade significativa de apelos tribais, dissonâncias, contradições, muitas delas em busca de se reconhecer, fundando, por sua vez, novos princípios de verdade. Assim os projetos pessoais podem restar confundidos com interesses que não o representam, desvirtuam de suas melhores possibilidades existenciais.

Nesse mesmo texto Wittgenstein ensina que o significado de uma palavra está intimamente colada ao seu uso, ou seja, longe da singularidade em sua melhor semiose, podemos ter acesso a qualquer outra coisa, menos ao seu ser em movimento comunicativo original.

Para se estabelecer uma interseção de qualidade, que permita ao Filósofo compreender a pessoa sob seus cuidados, é necessário empreender alguns acordos, que façam sentido a representação do Partilhante. A comunicação para ser compreensível, do lado a lado da interseção, precisa estabelecer um território comum, acordos mínimos, por onde a clínica aconteça.

Em Wittgenstein é assim: “O significado de uma palavra é seu uso na linguagem”. Nesse sentido, a mesma palavra pode ter vários significados, entendimentos, como se cada pessoa possuísse um dicionário próprio (e possui!), nem sempre acessível ao grande alfabeto das relações sociais, conhecimentos estabelecidos...

Por exemplo, na literatura, quando se conhece melhor um determinado autor, como: Mário Quintana ou Lia Luft, dificilmente ocorre algum engano, ao ler um texto desses poetas, mesmo sem assinatura, pelos termos agendados no intelecto, partilhados pela obra escrita, pronunciada. Aqui o estilo, a escolha das palavras, o teor da mensagem, a caminhada histórica de cada autor, contribui para identificar a quem pertence este ou aquele poema.

É importante destacar que o contrário também pode ser verdadeiro, ou seja, se esses autores forem desconhecidos, numa abordagem preliminar, sabe-se muito pouco ou nada a seu respeito. Deve-se mergulhar mais e mais na obra, na biografia singular traduzida em palavras, realizando uma aproximação de qualidade com essa obra de arte, suas expressões, jeito de ser, significado, valores...

A linguagem compartilhada na hora-sessão é um dos ingredientes essenciais na etapa preliminar dos exames categoriais, fonte de matéria-prima para a estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos.

(...)

Um abraço,

HS