domingo, 30 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Uma das maiores dificuldades da comunicação interpessoal é o desconhecimento da estrutura de pensamento (e como ela se manifesta) dos interlocutores. Como entender a linguagem na qual se expressa? Como prever, antecipar a natureza dos significados do outro? Qual o momento de falar e quando calar? Qual a melhor tradução para acolher o discurso Partilhante? De que forma qualificar a interseção com alguém predisposto a desconfiança, insegurança em relação aos humanos (com base num único humano que o feriu anteriormente!)?

Essas e outras questões se mostram como impedimentos a compreensão (prévia) do convívio entre as pessoas. Diz-se uma coisa e se entende outra. Faz-se um gesto e ele é distorcido pela interpretação equivocada (muitas vezes até, repleta de doutoramentos, especializações..).

A estrutura significativa na qual as pessoas equipam seu discurso existencial contém em si mesma, uma diversidade de armadilhas (dialetos, por exemplo) para impedir uma aproximação efetiva na relação com os outros de sua tribo.

Em Filosofia Clínica, buscando superar esse abismo presente no cotidiano, existe uma etapa preliminar, denominada: exames categoriais, aliás, essa expressão, por si só, denuncia as origens e o fundamento do novo método na Medicina (exames) e na Filosofia (categorias). Esse momento de estudo, observação, tradução compartilhada, serve para qualificar a escuta, o olhar, as elaborações em comum, tendo como pressuposto esse chão elaborado com os conteúdos do Partilhante na própria versão. O que os outros dizem a seu respeito costuma valer muito pouco.  
    
As palavras, silêncios, escolhas, fugas, jeito de ser, conviver, alegrias, tristezas, lacunas, preenchimentos, comportamentos, funções, e tudo aquilo que o Filósofo ainda não sabe, mas se a interseção e a boa vontade do Partilhante permitir, vai saber, se refere a natureza única, que vai se estruturando na pessoa Partilhante por seu discurso existencial.

Essa lógica da diferença integra a fundamentação teórica e prática da Filosofia Clínica. Bem assim o aspecto mutante da estrutura de pensamento, no que se refere ao percurso existencial de cada um, enquanto houver vida, na forma em que se conhece.

Nessa direção contribui Bento Prado Jr. (A retórica de Rousseau, 2008), ao recordar Rousseau no Pensifleur (1749): “Nada é tão diferente de mim quanto eu mesmo, é por isso que seria inútil tentar me definir exceto por essa variedade singular (...). Em resumo, um Proteu, um camaleão, uma mulher são seres menos mutáveis do que eu”.

A perspectiva de uma autogenia (como possibilidade de emancipação pessoal!) contribui para o entendimento de um método onde a singularidade não é um erro ou uma doença, mas um jeito de ser (com suas causas, consequências..) e devir próprio, um fenômeno humano irrepetível, que foi se estruturando ao longo da jornada existencial de cada um.

Um equívoco muito comum (um clássico!), é se entender uma fala qualquer, a partir do ponto de vista do ouvinte, desmerecendo o lugar de onde a manifestação surgiu, ou seja, a perspectiva do sujeito falante. Ainda existe um abismo (muitas vezes intransponível!) entre o que se diz e o que se consegue acessar pela escuta (nem sempre atenta). Aqui não vamos considerar as equivocidades e distorções do fenômeno humano, presentes na hermenêutica psiquiátrica, psicanalítica, por exemplo!

Ainda nos socorre Bento Prado Jr. (A retórica de Rousseau, 2008) ao dizer de Rousseau: “Ler Rousseau é, pois, ler em seu texto não somente uma teoria, mas a expressão de certo ritmo existencial, o destino excepcional de uma consciência singular”.

É necessário buscar as fontes discursivas em cada pessoa, identificar as regularidades, os padrões, deslocamentos narrativos, aprofundamentos, deslizes, lacunas, transbordamentos... Tendo como referência o jardim existencial do outro Partilhante (alguém que compartilha), sua expressividade, linguagens pelas quais diz (dizendo, calando...) o que precisa dizer, os sentidos e direcionamentos em sua ótica própria. 

Território no qual o Filósofo Clínico deve se aventurar, como um biógrafo em busca de dados (confiáveis) para sua biografia, a mais fidedigna possível, elencando fatos, conversando com pessoas, revisitando lugares, investigando o álbum de família e tudo mais que possa contribuir com essa colheita preliminar de matéria-prima, ponto de partida para uma localização existencial de maior alcance na malha intelectiva dessa pessoa recém chegando diante desse outro Filósofo em sua clínica.

(...)

Um abraço,

HS