segunda-feira, 31 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Em Filosofia Clínica existem procedimentos clínicos batizados de Submodos (algo enraizado (estruturante) no jeito de ser da pessoa ou que lhe faça muito sentido). Sua aplicação e eficácia estão relacionados, intimamente, ao alcance que possa ter na malha intelectiva do Partilhante. As duas etapas anteriores (Exames Categoriais e Estrutura de Pensamento) preparam esse uso clínico, o acesso à farmácia subjetiva, são os Submodos. Algumas referências importantes: interseção, acolhimento, escuta e observação (com redução fenomenológica), aprendizado  ...

O Filósofo Clínico é um profissional que possui uma Estrutura de Pensamento aprendiz. Noutras palavras: ter gosto, alegria, realização em conhecer o desconhecido. Saber que não sabe é seu ponto de partida em cada atendimento.

A lição mais básica sobre a utilização dos Submodos, após o fundamento dos Exames Categoriais e Estrutura de Pensamento, nos quais já aparecem, por este ou aquele nome, é seu uso de acordo com a estrutura Partilhante, ou seja, a pessoa já conhece e utiliza o procedimento informal no seu cotidiano.

Uma questão que poderia surgir aqui: se a pessoa já usa e conhece o Submodo, por que não o utiliza para cuidar melhor de si mesma? Existem muitas respostas para essa questão, talvez uma das principais: devido a pessoa estar muito próxima de si mesma, não conseguindo visualizar e tratar sua problemática (assunto último), precisando do auxílio de alguém (com uma metodologia específica) para acessar, compreender, direcionar aquilo que já possui informalmente.

Outra lição, quanto a essa etapa mais dinâmica, é quando o Filósofo detecta uma autogenia singular (onde o Submodo existente na Estrutura de Pensamento não dá conta da problemática), reivindicando um novo Submodo. Nesses casos é comum a atividade clínica do Filósofo se confundir, quanto ao Papel Existencial, com o exercício do Artesão e do Pedagogo, quando terá de confeccionar algo novo (que faça sentido à singularidade cuidada) e ensinar sobre o seu funcionamento existencial.

Por exemplo, quando a pessoa já conhece e utiliza as Ideias Complexas (Submodo), desenvolvendo uma aptidão imaginativa robusta, quem sabe usando essa habilidade para ser: professor, escritor, poeta, roteirista de cinema ... Território no qual o Partilhante se sai muito bem, desenvolvendo um Papel Existencial (Estrutura de Pensamento) de qualidade, tendo seu trabalho reconhecido.

Muitas vezes será nesse mesmo território estrutural significativo, que os choques poderão acontecer. Trata-se de identificar quando as Ideias Complexas servem ao bem estar subjetivo ou o contrário, quando produzem mal estar.

Não é raro o Partilhante ter clareza sobre suas questões, acreditando que se conhece, sabe como lidar consigo mesmo, bla bla bla ... Na clínica, quando a pessoa resolve enfrentar-se diante de um espelho diferenciado, é comum a surpresa com as possibilidades internadas em seu universo interior.

Nalguns casos pode ser importante, antes de prosseguir a terapia, cuidar desses momentos de transição entre as certezas da anterioridade e as incertezas chegando com a continuidade desconstrutiva da clínica.

As Ideias Complexas (Submodo) possuem sua fundamentação teórica na Filosofia de David Hume, na Filosofia de Gaston Bachelard.... A partir dessas leituras, pode-se entender melhor a criação desse procedimento clínico por Lúcio Packter.

Uma observação atenta, como as pessoas podem usar esse Submodo em seu dia-a-dia, concede múltiplos aprendizados, por exemplo: Quando perdem um ente querido, alguns se refugiam na oração, vão à missa, fazem promessas, imaginam um lugar melhor para se viver... Isso pode fazer sentido para algumas pessoas em alguns momentos, para outras será o contrário disso.

Raramente o Partilhante possui apenas um Submodo para viver suas circunstâncias existenciais. É comum fazer derivações, combinações, invenções... No entanto, também se sabe ser muito raro alguém com uma aptidão submodal sofisticada (com um rol enorme de procedimentos ao seu dispor), possivelmente em razão dos Princípios de Verdade (família, religião, língua, época...) onde está inserida.

O Submodo das Idéias Complexas pode ser remédio ou veneno, dependendo da sua utilização pelo Partilhante ou pelo Filósofo Clínico. É fundamental ter cuidado para se acessar e interagir com essa farmácia interna. A pessoa pode ficar refém de algo desconhecido, tendo certeza de que está fazendo a “coisa certa” e, quanto mais faz a “coisa certa”, mais se afunda existencialmente em dores, sofrimentos que se abastecem desse modo de pensar e agir.

(...)

Um abraço,

HS