quarta-feira, 5 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*


A escrita da Filosofia Clínica é um esboço sempre por vir. Reivindica estudos e práticas, lacunas, incompletudes, nas várias formas em que pode se apresentar e reapresentar. Pode-se aqui vislumbrar o ponto de vista do estudante, do professor, do partilhante, do pesquisador, inclusive os críticos que nada sabem a respeito (tipo não vi e não gostei!), das primeiras impressões, das últimas impressões, das impressões intermediárias...

Esse rascunho, nessa direção, propõe contribuir com a caminhada que se iniciou ou reiniciou nos anos 90 do século XX. Trata-se de relatos, testemunhos, depoimentos, recordações e partilha de eventos, vivências, convivências sobre o aparecimento de uma abordagem (mais uma!) terapêutica com base na Filosofia.

Cabe destacar que se trata de escritos recheados de incompletude, com espaços em branco que convidam e permitem aos que vão chegar, preenche-los com seus pontos de vista. Sendo um esboço singular, ainda em processo na clínica cotidiana, esses escritos tem pretensão nenhuma. Talvez sirvam como ponto de partida ou provocação aos estudos.

Existem várias homenagens do pensador precursor (Lúcio Packter) desse novo paradigma às suas fontes de estudo e pesquisa, um pouco anterior ao oferecimento à população na forma de curso, seminário, grupo de estudos. Uma delas é cunhar o método com o nome ‘Filosofia Clínica’, ou seja, os lugares por excelência de onde brotaram as ideias e coincidiram pensamentos, se associaram reflexões para fazer um sentido inovador. A Filosofia de um lado e a Clínica de outro. A tradição filosófica iluminando, fundamentando, atuando com maestria, e a clínica médica, no melhor sentido da expressão, como um lugar de estudo, observação, cuidado, prática, intervenção.  

O fundamento filosófico se justifica de várias formas, com vários pensadores. No entanto, para ler e entender adequadamente a Filosofia Clínica, é insuficiente a leitura direta nos clássicos! É necessário buscar autores que vivenciaram e vivenciam a terapia em seu devir cotidiano, numa dedicação integral à nova abordagem.

No que diz respeito á fundamentação teórica, pode-se lembrar algumas expressões de alguns mestres, como Merleau-Ponty: “Não há uma Filosofia que contenha todas as filosofias: A Filosofia inteira está, em certos momentos, em cada uma delas. Repetindo a famosa expressão, seu centro está em toda parte e sua circunferência em parte alguma (Signos, 1991)”

Bem assim Wittgenstein nas Investigações Filosóficas: “Pode-se dizer que o conceito ‘jogo’ é um conceito de contornos imprecisos – mas um conceito impreciso é, por acaso, um conceito ? – Uma fotografia desfocada é, por acaso, o retrato de uma pessoa ? Bem, pode-se substituir sempre com vantagem um retrato desfocado por um nítido ? Frequentes vezes não é o retrato desfocado precisamente aquilo de que mais precisamos ?”

As leituras, releituras, desleituras procuram um território onde, mais do que entender sua mensagem, possam ser compreendidos, acolhidos pelo texto de autores numa frequência autogênica semelhante.

Schopenhauer em “O mundo como vontade e representação” diz assim: “(...) um único sujeito, mais o objetivo, chegariam para constituir o mundo considerado como representação, tão completamente como os milhões de sujeitos que existem; mas, se este único sujeito que percebe desaparecer, ao mesmo tempo, o mundo concebido como representação desaparecerá também”.

É possível não restar muita coisa aquém ou além das construções compartilhadas, sejam elas presenciais, resultado das lembranças ou deslocamentos do espírito para aquilo que chamamos futuro ou, ou... Nesse sentido, mesmo a solidão mais solitária encontra-se acompanhada, nem que seja por seus fantasmas.

Todos nós ninguém ou ninguém e todos nós, pode significar alguma coisa, dependendo da espessura das brumas, o ângulo do olhar, o grau do óculos, a aptidão de estranhamento, o acolhimento desse mistério na complexidade (auto protetora) de ser singular. Conversação com as estruturas da invisibilidade num discurso existencial irrepetível.  

(...)

Um abraço,

HS