sábado, 8 de julho de 2017

Breves notas dos primeiros anos (rascunhos)*

 

Falar em expressividade nos dias de hoje, parece ter uma complexidade ainda maior que os dias de ontem. Talvez a pergunta essencial permaneça, em meio a tantas mudanças na vida e no convívio das pessoas com elas mesmas e os outros. Uma questão: como manter sua integridade (com você mesmo na manifestação com a vida lá fora) intacta em meio a tantos papéis existenciais diferenciados ?

Em Filosofia Clínica esse tópico da estrutura de pensamento (quando determinante) significa o quanto alguém mantém de si mesmo na relação com os demais integrantes de sua tribo existencial. Uma contribuição posterior a esse conceito inicial acrescenta a percepção de que também pode ser necessário integrar a singularidade expressiva com esses outros de si mesma, constituintes de seu discurso de maior intimidade.   

Outra questão: Como é possível alguém manter a fidelidade a si mesmo num mundo com tantas reivindicações, tarefas, atribuições disparatadas ? Um lugar onde, muitas vezes, a pessoa mergulhada num cotidiano nem sempre de sua livre escolha, tem de se manter, por força de lei ou outra necessidade empírica qualquer (econômica por exemplo), sendo estes tópicos estruturais mais determinantes (ao menos na vida social) que a manutenção de sua expressividade. Qual o preço que se paga por isso ? Talvez a perda de si mesmo ? Ou, quem sabe, a afirmação de tópicos até então desmerecidos ?

Nesse sentido dá para entender as variáveis e modificações de cada pessoa, dependendo do lugar, da interseção, do seu momento existencial (autogenia) quanto à coerência interna, externa. Ser expressivo numa sociedade de matriz hipócrita, fingida, dissimulada, pode significar uma desconexão radical consigo mesmo, familiares, colegas de trabalho, amigos...

Uma das questões que mais aparece no consultório, diz respeito a essa busca de ser inteiro, numa sociedade (princípios de verdade) fragmentada, recheada de jogos, interesses escusos, distorções axiológicas...

É possível pensar, como seria quando alguém encontrasse, no isolamento social, um refúgio para essas distorções e agendamentos dos princípios de verdade. No entanto, cabe acrescentar, dentre outros fatores, de que ainda restarão ecos, ressonâncias dos convívios anteriores, fortemente enraizados na historicidade de cada um.  

Assim sentimentos, ideias, recordações poderão ter força e impacto, ainda que não estejam num aqui-agora, numa tentativa de autoexílio ou distanciamento do social, em busca de qualificar a expressividade.

Um dos endereços existenciais onde esse viés pessoal se manifesta com maior congruência na sua própria estrutura de pensamento é a clínica, onde o Partilhante é o que é ou como gostaria de ser. Instantes onde se ensaia, exercita possibilidades para permitir esse aparecimento fenomenológico de si mesmo na interseção com os princípios de verdade.

Mais uma questão: como seria uma sociedade onde as pessoas fossem mais expressivas, íntegras consigo mesmas, coerentes entre dizer e fazer ?

As respostas, possivelmente, serão tantas quantos os sujeitos envolvidos na reflexão. Talvez comece aí a dificuldade em se ter uma percepção única para todas as formas de expressão, quiçá se consiga um acordo provisório ou consenso, que permita uma aproximação e convívio de harmonia com as lógicas da diferença.

(...)

Um abraço,

HS