segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Existem muitas maneiras de se fazer uma reconstrução, seus objetivos costumam estar vinculados às necessidades do Partilhante. Sendo submodo, trata de viabilizar tópicos significativos na estrutura de pensamento do sujeito, dar vazão àquilo que importa em seu ser subjetivo.

No entanto, antes mesmo de ter uma aplicação submodal em busca de qualificar a autogenia, sua presença pode ser notada e anotada nos exames categoriais (etapa na qual já podem acontecer movimentos de maior alcance na malha intelectiva...), quando a pessoa relata sua história de vida, através de um discurso pronunciado, escrito, desenhado, silenciado. Aqui não importa se o Partilhante está estruturado, desestruturado, com discurso completo ou incompleto, o Filósofo deve respeitar seu jeito de ser e conviver nesse território recém chegando, ter aptidão para acolher, compartilhar com as dialéticas da singularidade sob seus cuidados.

Outra faceta do submodo reconstrução (ele possui muitas formas de uso e funcionamento, tantas quantas são as pessoas que o utilizam!) acontece através dos deslocamentos, enraizamentos, adições, divisões... do Filósofo Clínico, tendo como base o álbum de família (quando ele existe), bem assim a visita compartilhada com o Partilhante, revisitando lugares onde ele passou parte de sua vida. Seja para colheita de matéria-prima ou noutros movimentos da clínica.   

Recordo uma Partilhante, no início dos anos 2000, que sofreu um acidente de carro, onde perdeu pessoas que amava e apenas ela sobreviveu. A partir desse dia, nunca mais conseguiu dirigir, pouco saía de casa. Numa das etapas (avançadas) de sua clínica, utilizando a reconstrução (apoiada por outros submodos como: ação, sensações, em direção ao termo singular, atalhos...), trabalhamos algumas sessões dentro de um carro (alugado e da mesma marca, cor e modelo do acidentado).

Num primeiro momento foi desafiador sair de casa, visualizar, entrar no carro. Com o passar dos dias conseguimos experienciar a situação de passageira e motorista, sem ligar ou andar com o veiculo. Depois de algum tempo ela já conseguia sentar em frente ao volante. Semanas depois demos a primeira volta pela quadra, depois andamos pelo bairro... eu ia dirigindo, ela me corrigia por não desviar dos buracos na rua, correr demais, esquecer de ligar o pisca, ligar o som alto...

O dia mais feliz (no papel existencial cuidador) dessa reconstrução foi quando a Partilhante assumiu a direção (dizendo que eu era um mau motorista) e fomos andar pela cidade. Isso se repetiu algumas vezes, até ela voltar a dirigir sozinha, restabelecer sua confiança na direção de sua vida.  

Por esse breve resumo de um caso clínico que teve uma duração aproximada de 2 anos, pode-se ter uma ideia da aplicação e alcance do submodo reconstrução, quando utilizado de acordo com as necessidades do assunto último. O assunto imediato era a insônia que não a abandonava, tomava muitos remédios para dormir e estava ficando realmente doente (no sentido médico da expressão).

A aplicação submodal, quando adequada a autogenia, que se busca trabalhar e tratar costuma ter um caráter libertário, num amplo sentido da expressão. Talvez por isso os Terapeutas (de várias abordagens) sejam vistos, muitas vezes, como elementos de discórdia, conflito entre as pessoas, principalmente familiares, quando estes relatam que seu familiar (Partilhante), até então, era uma pessoa dócil, acomodada, tomava seus remédios (psiquiátricos) direitinho, era comportada..., até iniciar tratamento com a Filosofia Clínica, quando ficou desacomodada, foi diminuindo a medicação (com auxílio médico) e tendo mais autonomia, questionava mais sua vida, as decisões, escolhas, convivências, queria viver melhor...

O submodo reconstrução pode ter vasta aplicação ou ser um estorvo, sempre tendo como fundamento os exames categoriais, para compreender o Partilhante, aprendendo com ele a língua na qual se expressa existencialmente, assim como a movimentação de sua estrutura de pensamento. A escolha, confecção, adaptação submodal deve respeitar o jeito de ser, viver, conviver da singularidade Partilhante e não o contrário (via de regra!).

(...)

Um abraço,

HS