sábado, 12 de agosto de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*




Acredito que todas as pessoas tenham ao menos uma super aptidão, algo único, inalienável, singular. Como vivemos numa sociedade massificada, onde a escola, universidade, igreja, família, tratam as habilidades das crianças como esquisitices, ainda mais se não estiverem dentro de normas aceitáveis, aí serão classificadas como: desvio, subversão, patologia. 

Penso naquele Jardineiro que tem um talento para jardins, como nenhum outro, ou aquela Cantora que encanta como ninguém mais. Um Fotógrafo que sabe escolher o melhor ângulo, tendo como ponto de partida sua sensibilidade única, seu olhar clínico para captar a beleza diante de si. A Médica que sabe ser Médica além de suas referências acadêmicas, vocacionada para a arte de cuidar, dar atenção à vida.

O Músico que traduz os sons da natureza ao seu redor, o Matemático que calcula, decifra, compreende a linguagem dos números como nenhum outro. O Cozinheiro que faz de sua culinária uma arte, impregnando tudo ao seu redor com sensorialidades. O Marinheiro que vai além dos ensinamentos da escola e decifra suas rotas pela luz das estrelas. A Veterinária que se comunica com os animais, nas múltiplas linguagens nas quais se expressam...

Esses são alguns exemplos, de habilidades, talentos, raridades, que só uma caminhada existencial desenvolvida de acordo com suas necessidades, poderá acolher, respeitar, emancipar. Na maioria das vezes o que se vê é a busca por um direcionamento, regramento, onde alguém ensina o que tem de ser ensinado, os demais tratem de decorar, tirar boas notas, passar de ano, ter um diploma...

Deveriam existir escolas especiais que cuidasse das pessoas em vias de crescimento, descoberta. Um lugar onde a pessoa fosse respeitada em sua originalidade, por mais esquisita que fosse ao olhar dos tutores da normalidade.

Esse processo de desmerecimento das habilidades de cada um, muitas vezes, se inicia na família, onde os pais com suas certezas agendam sobre o que seus filhos deverão ser quando crescer. Logo depois vêm as escolas (escolhidas por eles), em busca de tornar seus filhos alguém respeitável (seja isso o que for...!?).

O caos se instala, quando algum desses jovens não segue as regras, insubmissos, subversivos, muitos fogem de casa para perseguir seus sonhos. Os tratamentos para recolocar esses bandidinhos no ‘bom caminho’ possuem amparo institucional, médico, legal, educacional, religioso... Fundamentados na regra normal (votada por congressistas normais), isso segue e prossegue nos dias de sempre.  

É muito raro um talento ou uma aptidão ser identificada e respeitada precocemente. Quase sempre, até para evitar confusão e agradar a família, amigos, colegas, muita gente boa abre mão dos seus sonhos, ainda mais se essas buscas significarem coisas consideradas esquisitas, diferentes, destoando do ambiente e da cultura onde se encontram.

Uns vinte anos atrás, aproximadamente, atendi um jovem Médico, inteligente e sensível. O pai também Médico Psiquiatra encaminhara seu filho único para continuar a tradição da família. Jamais perguntara se era isso que ele queria! Por sua vez o filho, para ver o sorriso e felicidade do pai e da mãe submissa, fazia de tudo para agradá-los.  

Na faculdade de medicina tirou boas notas, como sempre. Desde a escola, era um aluno exemplar, inteligente, aplicado. Secretamente, no entanto, fazia incursões pelas Belas Artes. Pintava e desenhava como ninguém mais, desenvolvia suas habilidades com foco e disciplina autodidata. Essa aptidão foi classificada pela família como um hobby, jamais uma possibilidade pra se levar a sério. 

O filho deveria isso sim, priorizar os estudos em Medicina, cuidar do seu futuro, ganhar prestígio, dinheiro, poder, dizia o pai. Nesse sentido, inclusive, acenava que um dia a clínica da família seria dele, a fazenda, os imóveis, carros... garantia que o bom nome e a tradição da família seriam mantidos.

(...)

Numa crise de pânico mais severa, descartando a medicação psiquiátrica, o filho procura um Filósofo Clínico. Nessa fase da vida já era aluno da especialização em Psiquiatria. No entanto, o incômodo crescia dentro dele, sufocava, não conseguia se abrir com mais ninguém, deixava de frequentar as festas familiares, onde sempre fora tratado como um troféu. Permanecia a maior parte do tempo fechado em seu quarto, sob o pretexto de estudar. Mas o que fazia, cada vez mais era pintar, pintar, pintar...

(...)

Depois de algum tempo na terapia, o jovem Médico resolveu assumir sua verdadeira vocação como pintor. Prestou vestibular para Artes Visuais na Universidade Federal e foi aprovado. Nessa mesma época saiu de casa e marcou uma reunião com o pai. Nesse dia lhe devolveu os diplomas e históricos escolares, desde o período da escola, dizendo que agora assumiria sua vida, iria trás de sua liberdade, objetivos, verdadeira vocação (que era a Arte!). O pai blefou, ameaçou, chorou, gritou, deserdou...

Nada fez efeito, o filho saiu andando, se estabeleceu numa casinha bem humilde no extremo sul de Porto Alegre, onde vivenciava sua melhor circunstância existencial: pintava, desenhava, esculpia, estudava na Faculdade de Belas Artes e sentia uma coisa estranha, segundo ele uma quase euforia, poderia ser felicidade? Perguntava ele.

A ultima noticia que tive alguns anos atrás, dava conta de que estava muito bem. Concluíra a graduação e participava de mostras e exposições na capital e interior do estado. O pai ficou espantado com a coragem e audácia e autonomia do filho, até então tão bem educado... uma pessoa normal, pacata, cordial. Procurava saber quem ou o que havia influenciado seu filho, pois essa era a única linguagem que conhecia: submissão, medicamentalização, sufocamento existencial. Jamais imaginaria algo como: Construção compartilhada, por exemplo.

(...)

Um abraço,

HS