sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Uma característica significativa na clínica da Filosofia Clínica é sua natureza de acolhimento e interseção com a singularidade. Esse aspecto, longe de ser uma peça de retórica, reivindica um método capaz de não desmerecer as fontes onde cada pessoa se alimenta existencialmente, se constitui como projeto irrepetível, acontece em seu ser inédito, vislumbra um espelho que irá consigo quando se for. 

Às vezes vejo alguns profissionais de outras áreas, dizendo: ‘não, na minha abordagem também trabalho com singularidade!’, quando pergunto como isso acontece, respondem explicando: tipologias, a necessidade do medicamento, diagnósticos, etc... Ora não entendeu o conceito de singularidade, o sentido da expressão como a entendemos e utilizamos em Filosofia Clínica.

Thomas Kuhn na ‘Estrutura das revoluções científicas’ esclarece sobre esse fenômeno: as pessoas contemporâneas ao novo paradigma, quando, numa de suas fases, passam a acolher o novo método. No entanto, mesmo reconhecendo a abordagem que vai chegando, falam assim: ‘não agrega nada de novo’, ‘isso já existia’, ‘eu também já fazia’, etc...

Ora, entendo que deve ser difícil, sofrida a constatação de que as pessoas investem seu tempo, dinheiro, expectativa, estudando modelos que vão sendo superados por novas abordagens, superando àquelas que já não respondem as necessidades do fenômeno humano. Por outro lado, talvez, se pudesse ter humildade, sabedoria, buscando saber mais, melhorando a atividade clínica tão dinâmica, enquanto se propõe acompanhar os desdobramentos humanos multifacetados.

No entanto, nesse sentido, também alerta o autor da estrutura, dizendo: ‘(...) é preciso uma espécie diferenciada (muitas vezes considerada esquisita pela vizinhança) de pessoa’, a maioria vai se acomodar nalgum sistema e a partir dali, vivenciar seus dias, não raras vezes, reagindo de forma agressiva às novidades que possam surgir. 

Na percepção da Filosofia Clínica que se pratica, quando ocorrem eventos de esteticidade bruta (explosões, descontrole..), esses, muitas vezes, podem ser resignificados em esteticidade seletiva, contrariando a máxima dos modelos clássicos, de que é preciso a contenção mecânica, medicamentosa, para lidar com esses episódios desestruturantes, caóticos, libertários, criativos. A nova abordagem, contempla esse fenômeno de transbordamento pessoal como uma oportunidade de expressividade, acolhendo e qualificando-a nalguma forma de expressão artística, esportiva, religiosa...

Há cerca de uns 15 anos atrás, atendi uma menina na região do Vale dos Sinos/RS. Estudava no ensino fundamental em uma escola pública, tinha 10 anos, comportamentos agressivos, batia em seus colegas, se mostrava arredia nos relacionamentos. A professora e a mãe tinham um diagnóstico: ‘era maluca, deveria ser medicada, internada...

Uma tia também professora, noutra escola, lecionava Artes, ouviu falar numa nova terapia: Filosofia Clínica, que respeitava e cuidava das pessoas a partir delas mesmas, sem internar ou violentar seu ser em processo. Foi assim que conheci a N., através de sua tia.

No começo trabalhava diariamente com a N., devido as suas manifestações agressivas com os outros, consigo mesma, com o mundo. Nesses dias ela mudou pra casa da tia. Depois de uns meses, trabalhamos com a mãe, o irmão mais velho. Com o tempo da menina (por volta de 01 ano) as crises foram amenizando, no entanto, a necessidade de expressão física continuava.

Numa das sessões a N. parecia ‘pensar em voz alta’, dizendo: ‘se eu pudesse brigar e isso não fosse um crime (...)’. Nessa época buscamos, junto com a família (mãe, tia..), uma academia ou local onde pudesse praticar alguma atividade física. Encontramos no bairro uma escola de taekwondo.

A última notícia que tive da N., foi de que estava competindo e já ganhava medalhas, ia bem nos estudos, estava namorando, convivia melhor com os colegas e sua mãe. 

Ora, essa breve apresentação, não consegue compartilhar e traduzir a beleza e o alcance dos procedimentos utilizados, a qualidade dos encontros clínicos, os desdobramentos do processo, seu alcance na malha intelectiva, as repercussões na vida da N.

Percebo que, mesmo quando alguns filmes, peças de teatro, literatura, abordam o tema terapia (penso nas melhores obras), seu roteiro fica pobre, em se comparando com a atividade clínica no consultório, hospital. Recordo filmes como: ‘tempo de despertar’ (EUA, 1990), ‘gênio indomável’ (EUA, 1998), ‘don Juan de Marco’ (EUA, 1995). Parece que nem a fantástica imaginação dos melhores roteiristas de ficção consegue representar adequadamente a magia da terapia.

Nesse sentido, ser incomunicável, parece constituir uma proteção ao papel existencial do Filósofo Clínico e seu Partilhante. Uma estranha e singular alquimia acontece nessas construções compartilhadas, quase sempre intraduzíveis (por inteiro).

Ainda estamos, sob muitos aspectos, reféns de um mundo que busca novas formas de ser normal, tendo como ponto de partida a contenção, o desmerecimento das diferenças, um medo quase pré-histórico com o novo. Muitas vezes, desqualificar o discurso existencial alheio parece ser um aliado eficaz para a sustentação social. Sua base de saber-poder, longe de libertar, cuidar, acolher... submete, aprisiona, vigia, pune expressividades in_conformadas.

Ainda temos um grande caminho pela frente!

São muitas as frentes de trabalho, envolvendo estudo, pesquisa, qualificação de uma formação clínica voltada ao entendimento e libertação do fenômeno humano, suas múltiplas possibilidades existenciais, respeito à singularidade, sem a contenção e o controle da igreja psiquiátrica (e seus parceiros como a escola, a família...) e sua mantenedora: a indústria farmacêutica. Os quais, aliados a desinformação e sustentados pelas leis (formuladas pelo interesse econômico, por exemplo), decretos para sua manutenção ideológica, perpetuam uma geração de zumbis, desqualificando o ser possível da singularidade humana. 

(...)

Um abraço,

HS