domingo, 20 de agosto de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Existem muitas possibilidades para a leitura de um texto filosófico. Desde o sentido pretendido pelo autor, até suas múltiplas derivações de leitura.   

No livro terceiro da obra: ‘O mundo como vontade e representação’ de Arthur Schopenhauer, o pensador concede uma sustentação teórica de valor, para se entender a interseção entre Estrutura de Pensamento e Submodos em Filosofia Clínica. Oferece um apontamento sobre a natureza dos tópicos estruturais, seu relacionamento interno e sua possibilidade de expressão no cotidiano. Resultante objetiva da influência tópica determinante nas escolhas, jeito de ser, viver e conviver de cada um.

O pensador diz assim: “(...) a vontade manifesta-se unicamente como aquilo que constitui o mundo, abstraindo da representação; (...) segundo esta noção, demos ao mundo, considerado como representação, o seguinte nome, que corresponde tanto ao seu conjunto como às suas partes: a objetividade da vontade, que significa: a vontade tornada objeto, isto é, representação”.

Esses atributos considerados na ótica de cada pessoa constitui um estilo, um jeito de ser único, através do qual ela se expressa, nas múltiplas relações da Estrutura de Pensamento com ela mesma, acolhe, significa, entende, reage com aquilo diante de si.

Assim se vê sujeitos que possuem uma bagagem Submodal que dá conta de seu devir existencial, qualificam os desdobramentos de sua historicidade, buscas, interesses, vivências, aprendizagens... parecem suficientemente equipados para sua jornada existencial.

Exemplo 1: “O P. pensa em algo, um projeto, uma busca, e segue realizando esse algo, encontra os meios, se não os tem trata de procurar, inventar, descobrir...”

Exemplo 2: “Diante de uma crise, sofrimento pessoal ou outro desafio qualquer, desses que a vida oferece a fartura, a R. trata de encontrar saídas, desconstruir a tentação do Papel Existencial de vítima, inconformada em assumir uma culpa plantada por agendamentos recheados de boa intenção...”

Exemplo 3: “Já a M. possuem uma enorme aptidão para criar e desenvolver Submodos. Encontra no cotidiano inúmeras oportunidades para se exercitar. Noutras palavras, se movimenta com desenvoltura em sua própria Estrutura de Pensamento, tratando de viabilizá-la e não o contrário. Aqui existe uma forte coerência entre pensamento e ação. Inclusive dá pra se pensar numa integração quase perfeita. A questão aqui é gerenciar os transbordamentos...”

Por outro lado, existem Estruturas de Pensamento subdesenvolvidas, onde a pessoa quer realizar-se para além do quintal conhecido e não consegue. Por várias questões, se vê amordaçada, impedida por sua própria subjetividade, de seguir além de seus muros existenciais, também construídos pelas ‘boas ações’ da família, escola, igreja, governo...

Exemplo 1: “A S. sempre quis trabalhar com moda, ser estilista. Aprecia as coisas da estética, vibra com os desfiles na TV. No entanto seu cotidiano é com uma enxada na mão, trabalhando na roça com os pais, irmãos... ao todo são 10 filhos. Aos domingos vão à igreja agradecer a enxada na mão. Muitos suicídios acontecem em casos semelhantes, quando não se encontra forças, subsídios ou Submodos para alçar os voos, quando necessário.

Exemplo 2: V. possui os Submodos de que necessita, no entanto, pratica suas aptidões em ambientes (categoria lugar) em radical desconformidade consigo mesma. Lembro de um tempo em que foi trabalhar como agente penitenciária. Na época sua preocupação era ter uma estabilidade e ganhar bem.

Sequer cogitou se essa atividade fazia algum sentido a sua singularidade. Poucos anos depois começa a apresentar episódios de agressividade, tristeza profunda, se isola. O diagnóstico de câncer veio 2/3 anos após, quando se iniciou uma luta médica para reverter a situação.

Nessa época procura o Filósofo Clínico, o qual esteve junto até seus últimos dias, ela morreu com 39 anos. Exibia uma Estrutura sensível, voltada para a poesia, arte, teatro...

Os exemplos em Filosofia Clínica são tantos quantos forem os Partilhantes, mesmo quando parecidos, são diferentes (daí não se ter tipologias, mas singularidade!). Cabe ao Filósofo Clínico aprender como essa pessoa se estruturou ao longo da vida, o que aprendeu, como aprendeu, qual sua movimentação existencial a partir do que possui em sua geografia interna ?

Schopenhauer diz assim: “(...) o conhecimento, em geral, faz ele mesmo parte da objetivação da vontade considerada nos seus graus superiores; que, aliás, a sensibilidade, os nervos, o cérebro são, do mesmo modo que as outras partes do ser orgânico, a expressão da vontade considerada nesse grau de objetividade; por conseguinte, a representação que daí resulta é igualmente destinada ao serviço da vontade como meio para chegar a um fim (...) é para conservar um ser com múltiplas necessidades”.

Nesse sentido o estudo e a aprendizagem do Filósofo Clínico na interseção com seu Partilhante, terá sempre, como ponto de partida, a leitura adequada de Estrutura de Pensamento. Tendo como ponto de partida o que se mostra (fenomenologicamente) nos Exames Categoriais, e não o contrário.

Tendo em vista a busca dessas vontades sem representação, muitas vezes o assunto último não será encontrado na autogenia estrutural. Talvez nalgum ponto no meio do caminho entre a Estrutura de Pensamento e sua manifestação Submodal.

(...)

Um abraço,

HS