segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Em Filosofia Clínica os ingredientes da cultura, elementos integrantes da sociedade, os convívios e agendamentos da estrutura de pensamento social, denomina-se princípios de verdade.

A partir dessa compreensão, de que muito daquilo que constitui a singularidade é resultante desse convívio com os agendamentos do seu dia-a-dia, é possível saber mais da categoria circunstância. Uma referência para a tradução do olhar de uma pessoa em seu território próprio. 

Merleau-Ponty diz assim: "(...) a cultura nunca nos oferece significações absolutamente transparentes, a gênese do sentido nunca está terminada. Aquilo a que chamamos com razão nossa verdade, sempre o contemplamos apenas num contexto de signos que datam o nosso saber". 'Signos, 1960'.

Nesse sentido se apresenta o fenômeno humano em uma singularidade compartilhada, num determinado contexto, o qual impacta essas relações através da linguagem, comportamentos, escolhas, interseções, leis, instituições, valores...

Uma das vias para se acessar as origens do discurso existencial do Partilhante são os termos agendados no intelecto, as palavras e atitudes com as quais vai expressando suas fontes de referência, suas verdades pessoais e as possibilidades de interseção com o lugar onde vivencia seu mundo como vontade e representação. 

Assim esse discurso existencial permanece incompleto, aberto, em trânsito pelas várias possibilidades de existir e conviver. As leituras, escutas, diálogos, a mobilidade social ou não, com o qual a pessoa escreve e descreve seu caminho até hoje, pode oferecer indícios para qualificar-se em meio àquilo que o cerca, bem assim tudo mais que lhe for significativo. 

Para compreender a trama discursiva de alguém, é necessário ter como ponto de partida uma mescla contida no seu discurso pronunciado pela palavra, as atitudes como um desdobramento coerente, incoerente, completo, incompleto, diante de determinado conjunto de princípios de verdade, o qual pode aceitá-lo ou não. 

A sociedade onde cada um está inserido, se manifesta na tradução de sua retórica existencial. Merleau-Ponty ensina: "(...) enfim, temos de considerar a palavra antes de ser pronunciada, o fundo de silêncio que não cessa de rodeá-la, sem o qual ela nada diria, ou ainda pôr a nu os fios de silêncio que nela se entremeiam". 'Signos, 1960'.

Esse 'fundo de silêncio' constitui tudo aquilo por onde a pessoa se diz (mesmo quando silencia) existencialmente. O lugar de onde vem, onde se encontra atualmente, para onde se direciona... São conteúdos que, ainda quando não são ditos literalmente, se anunciam nesse jogo de luz e sombra que constitui o enlace e os desenlaces do convívio social. 

Os princípios de verdade, talvez como nenhum outro tópico ou submodo, ajudam a localizar existencialmente o sujeito Partilhante. A partir dessa referência é possível decifrar seus códigos de singularidade contados em versão própria. Qualificar a interseção, tendo como pano de fundo a cultura onde essa historicidade se desenrola. Conceder maior visibilidade sobre o devir existencial na provisoriedade de um instante compartilhado.     

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Um abraço,

HS