sábado, 23 de setembro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


O tema da autogenia em Filosofia Clínica, encontra subsídios teóricos em vários pensadores da tradição filosófica. Aqui me refiro ao constructo teórico que serve de fonte de inspiração ao constructo prático da nova abordagem terapêutica.

Nesse sentido, Friedrich Nietzsche é o pensador das autogenias mais radicais. Sua Filosofia de cunho desconstrutivo/reconstrutivo, convida à libertação. O teor de suas ideias constitui uma contradição com aquilo que deveria estar vivendo mas que se encontra morrendo.

Em uma passagem de seu texto diz assim: “Quem sabe respirar o ar das minhas obras, sabe que ele é um ar das alturas, um ar vigoroso. A gente tem de ter sido feito para ele, caso contrário não é nem um pouco insignificante o perigo de se resfriar no contato com ele”. Ecce Homo, L&PM Pocket, 2014.

São muitas referências autogenicas, as mais radicais podem ir de uma extrema acomodação existencial (e a pessoa viver bem assim) ao outro ponto (paradoxal) de um máximo desconforto existencial (e a pessoa viver bem assim). Já para outras estruturas de pensamento, será o contrário disso tudo!

As problemáticas no cotidiano da clínica do Filósofo também podem ser de outra natureza. Sua singularidade e formas de expressão reivindica um método capaz de acolher e interagir com as mais variadas formas de viver, como se fora um modelo de terapia para cada pessoa. Em Filosofia Clínica é assim!

Quando uma crise desconstrutiva se instala, muitas vezes, o Partilhante se encontra deslocado, infeliz, desconfortável no lugar existencial onde está. Sem ter ainda a novidade que busca, se debate contra as paredes que ele mesmo construiu ao longo dos anos, no entanto, esse mesmo prédio não serve mais como abrigo, ameaça ruir!

Nesses momentos pode ser fundamental buscar alternativas existenciais, dentro das possibilidades que a estrutura de pensamento oferece. Noutros casos, ainda, o Filósofo pode oferecer procedimentos novos, necessitando de um tempo subjetivo para que a pessoa se aproprie desse novo aliado, para qualificar as autogenias de que precisa para viver mais e melhor.

“(...) não acreditar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação”, diz Nietzsche, ou seja, pode ser anormal alguém buscando a libertação dos padrões de normalidade que o aprisionam, por exemplo. Uma busca por desconstituir aquilo que em outra época fazia sentido, incluindo os freios existenciais, agora destituídos de alguma interseção com o novo sujeito que insinua nascer.

Não é raro encontrarmos na atividade clínica, pessoas inteligentes, estudiosas, sofisticadas do ponto de vista intelectual, que são verdadeiros miseráveis, analfabetos, do ponto de vista do mundo empírico, das vivências e convivências com o cotidiano fora das referências da malha intelectiva pensando.

Nietzsche convida a refletir: “(...) no fim das contas ninguém pode captar nas coisas, incluídos os livros, mais do que ele mesmo já sabe. Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente também não tem ouvidos”.

O fenômeno da autogenia se apresenta na vida diária, pode acontecer a partir de uma contradição na estrutura de pensamento, com repercussões nas ações e desfechos empíricos. Pode surgir de contrariedades, dependendo das escolhas de lugar, tempo, interseções, ideias com as quais as pessoas se alimentam.

Existem muitas formas de envenenamento existencial. Nietzsche ensina: (...) a humanidade até hoje esteve nas piores mãos, de que ela foi regida pelos malogrados, pelos vingativos-astutos, pelos assim chamados ‘santos’, esses caluniadores do mundo e violadores do homem”.

A dialética autogênica é uma aliada para viver bem e melhor, seja isso o que for na estrutura de pensamento da singularidade. Nalguns casos pode significar a manutenção da vida como ela é, noutros será aquilo que o sujeito for capaz de vivenciar em suas circunstancias pessoais.

A ideia da autogenia como movimento, transformação, sejam eles desconstrutivos ou reconstrutivos, também está presente no texto do “Ecce homo”, quando o pensador alemão escreve: “(...) foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiado belo... O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia...(...)”.

Me agrada saber (e isso me basta!) que até o ano de 2009, com a obra: “Filosofia Clínica – diálogos com a lógica dos excessos”, E-papers/RJ, esse tema ainda era desconsiderado, marginalizado em Filosofia Clínica.

(...)

Um abraço,

HS