sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Breves notas dos primeiros anos (Rascunhos)*


Esses escritos de um velho professor e filósofo clínico devem servir como contribuição, talvez suporte a quem desejar alguma aventura em uma dessas atividades. Os equívocos, enganos, desacertos, alegrias, realizações... devem eles mesmos, ser um testemunho de alguém que aprecia e se encanta com a vida, em suas múltiplas formas de manifestação.  

Esse espaço de interseção e convivência com o fenômeno humano, a partir de uma referência metodológica sem tipologias, mas singular, concede um olhar extraordinário (que está na raiz da filosofia) a partir do mundo como representação do outro com o qual me encontro e não (exclusivamente) das minhas leituras, especialidades, vivências.  

Alguns métodos da filosofia, como: hermenêutica, dialética ou fenomenologia, dentre outros, quando oferecidos à condição humana em seu dia-a-dia, aqui penso especificamente na filosofia clínica, estruturam procedimentos terapêuticos de grande alcance na malha intelectiva das pessoas (e seus desdobramentos, ressonâncias, derivações).

Quando aplicados de acordo com a singularidade partilhante, respeitando pressupostos de lugar, tempo, interseção, linguagem, deslocamentos, historicidade... pode alcançar uma qualidade de intervenção clínica até hoje desconhecida. Cabe lembrar que nossa abordagem acolhe, observa, investiga, trata de aprender qual a língua que o outro se expressa, o contexto existencial onde exercita sua condição humana, o que lhe é essencial hoje e o que lhe é periférico... como ponto de partida.

Reconheço e entendo, embora não compartilhe do mesmo ponto de vista, sobre a enorme dificuldade que alguns filósofos acadêmicos tem para entender a filosofia clínica. Exímios comentadores, resenhistas, escritores... A maioria refém das salas confortáveis e de tudo mais que cerca o sedutor mundo da universidade, o qual, enquanto lhes confere alguma estabilidade e reconhecimento, também lhes cobra uma fidelidade rígida à ideologia e rituais acadêmicos.

Por volta do ano 2.000, no intervalo de aulas numa universidade mineira (o espaço era cedido para o curso de filosofia clínica), enquanto saboreava um café recém passado e um pão de queijo como você só encontra em Minas Gerais, tive a companhia de um professor que fez um breve desabafo: (...) veja só: ‘agora finalmente vou me aposentar, estou completando 70 anos de idade. Antes de ingressar na universidade eu tocava piano, instrumento que estudava desde os 10 anos de idade; também escrevia poesias, cheguei a participar de alguns eventos literários, coletâneas, até publiquei um livro... Quando conclui o mestrado logo ingressei no doutorado e prestei concurso na universidade federal – passei em primeiro lugar – na época considerei a conquista da minha vida! Depois de todo esse tempo, acabei me acomodando ao salário, a rotina de artigos científicos, orientação de tccs, congressos... e esqueci de mim. Agora estou me aposentando, me sinto traído por mim mesmo... o que vai ser da minha vida ?”

Esse breve relato ilustra uma faceta cruel de quem prioriza o aspecto econômico, a estabilidade, ou qualquer outro fator, em detrimento de um talento, vocação, habilidade singular. Parece que estamos desacostumados a respeitar nossa essência. Aliás, o que seria isso?

Por outro lado, quase inacreditável perceber que a filosofia nasceu em praça pública! Aos poucos, foi se encarcerando nos castelos, bibliotecas, escolas herméticas, sistemas complexos, de difícil acesso. Assim tomando uma distância enorme, criando um abismo com uma de suas maiores fontes de saber: o cotidiano das pessoas.

(...)

Um abraço,

HS