segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Apontamentos marginais*


Conjugar Filosofia Clínica e Literatura é um convite de exposição e superexposição do autor pela delimitação das obras escolhidas, seus conteúdos, interesses, preliminarmente falando. Mais que um tratado de informação dirigida: um submodo ao alcance de algumas pessoas, no caso de se indicar uma leitura, filme, peça de teatro, obra de arte..., algo que possa conversar com o leitor e alcançar algumas dicas sobre sua problemática; um diálogo se faz necessário, para acolher o imenso saber compartilhado pelos diferentes gêneros literários como a poesia, romance, crônica ou a crítica literária, por exemplo.

Como o caso de Jorge Luis Borges, autor Argentino, que escreveu e auxilia na compreensão e entendimento sobre a categoria lugar, através dos relatos de sua singularidade literária, os princípios de verdade na formação da estrutura de pensamento, como é para ele em suas circunstâncias existenciais.

Borges diz: “As ruas de Buenos Aires são-me já as entranhas da alma”. A literatura aparece como uma referência forte à atividade fenomenológica de descrever a fala da autoria compartilhada em verso, ensaio, poesia...

Por outro lado, mas na mesma direção quando o autor busca traduzir aos pais, a razão de ter escrito um ensaio sobre o poeta Evaristo Carriego, considerado menor, trabalho com o qual Borges ganhou um prêmio municipal, relatava: “Carriego foi o homem que descobriu as possibilidades literárias dos difamados e andrajosos subúrbios da cidade: o Palermo da minha infância”.

Se o mundo é vontade e representação, como ensina Schopenhauer, o autor esboça sua medida de todas as coisas, no instante em que escreve suas versões que são suas verdades sob o próprio olhar, sensações, percepções.

Outro exemplo do significado e alcance da categoria lugar, princípios de verdade e a própria representação de mundo e paixão dominante para Borges, pode ser verificada em sua expressão sobre a biblioteca onde trabalhou por muitos anos: “(...) depois de ter deixado a biblioteca e nela parte da própria alma (...) em qualquer lugar do mundo em que esteja a visito nos meus sonhos. (...) sonho com a biblioteca (...) e inexplicavelmente, como costuma ocorrer nos sonhos, a biblioteca é infinita e me pertence”.

A partilha da sua historicidade pelo Partilhante, com um mínimo de agendamentos por parte do Filósofo Clínico, tem seu desdobramento na percepção aprofundada da estrutura de pensamento. Para algumas pessoas o lugar interno e o externo valem pouco ou são insignificantes, para outras podem ser decisivos, de acordo com os relatos da matéria-prima elaborada nas sessões.

Para Borges o lugar ocupa um fundamento, sua essência que brota da existência (Sartre) está em interseção firme com as ideias, recordações, sonhos, imaginação, desdobramentos de sua singularidade na relação com a literatura e a vida das ruas.

Em sua obra “Ficções” refere a importância do olhar e dos deslocamentos desse olhar no cotidiano desse universo singular que anda com as pessoas, sua escrita: “A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam”.

Como o mundo parece e aparece surge em quase todos os seus relatos, bem assim a interseção com suas paixões dominantes, axiologias, devaneios criativos... A singularidade, pedra de toque da Filosofia Clínica e, talvez a maior distinção das demais abordagens, já que não trabalha com tipologias, surge a todo instante nas palavras do autor das ficções. Talvez seja a Filosofia Clínica uma obra que saltou da ficção para a realidade... ou teria sido o contrário...? Por que não ?

Jorge Luis Borges também compartilha seus pré-juízos em relação aos alunos, quando diz: “Depois de nove ou dez noites compreendi com alguma amargura que nada podia esperar daqueles alunos que aceitavam com passividade minha doutrina, e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável”. Um significado que se destaca na literatura do incomparável autor argentino é sua interseção com a vida das ruas e a vida dos sonhos, seus relatos parecem agregar fantasia, realidade e algo mais...

Nesse sentido encontramos uma referência importante à atividade clínica do Filósofo, o qual, a partir da estrutura de pensamento do Partilhante, elabora um lugar (consultório, jardim, beira da praia, café...) onde possam exercitar as possibilidades até então interditadas pelos princípios de verdade e demais relações do seu cotidiano.

(...)

Um abraço,

HS